São Paulo é saudade. Nostalgia. Desafia-me sempre. Sempre que venho. Volto. É o lugar de todo mundo. Dos prodígios e dos desgraçados. Larvas. Milhares de crônicas já foram escritas pra ela. São Paulo. É inútil, ria Beckett catatônico. Em estado. Ele que nunca pisou aqui. Iria cair. Oh, segurem o coitado. Esmagaria essas calçadas com suas pisadas certeiras, irlandesas. Iria cair. Coitado do Beckett. Morreu. Obtuário: Esteve lá, na metrópole do absurdo. Baqueou.

Sou meio idiota pelos devaneios. Perdoa-me. Não sei de outro jeito, não aprendi. Enfim, escrever sobre São Paulo é de uma inutilidade total. Milhões de corpos. Todos úmidos.  Todos no mesmo espaço. Acotovelando-se – aprendi esse verbo em uma tradução barata (anotei?) – , espremendo-se. Juntos. É lindo de ver, de longe.

Gosto da São Paulo, de Mário. O melhor dos conterrâneos. O melhor dos Mários –  Por que não voltas? Há sempre uma ação. É estúpido. Dá-me claustrofobia, a de hoje. Veja a Paulicéia. Parecia-me bela – Devaneios modernos, porém. Diálogos. Era só a elite, como sempre. A Semana, o festival, a elite, porém. Como sempre.

Ninguém vai vencer. Mesmo assim, correm. Correm. Gosto dos seus simulacros. Ah, essas me interessam, as pequenas São Paulos espalhadas por aí.

Qualquer pessimismo parece amador por aqui. Ela os engole. O ocre do ar invisibiliza. Desespero. Não é fácil. A observar bem, dá para ver, o processo. Os rostos sendo preenchidos aos poucos, os olhos procurando algo, e São Paulo os esmagando. Está nos terminais de espera. Fila para entrar. Sejam bem-vindos. Boa sorte. Olhem bem.

O que fez Nelson Rodrigues foi escrachar a grande metrópole. Injusto, mestre. São Paulo é de uma feiura imutável. Genética. A cidade de ninguém. Que a todos engana e imobiliza. Saiam daí. Nada mais impopular que as suas centrais. Suas veredas, a causa da escuridão borgeana. Acostumado, claro, com a opacidade de Aires. Um pouco mais leve e fibrosa. De fácil digestão, portanto.

Ai de mim, São Paulo.

Sua crueza mata. Sua periferia está tão longe que nem é lembrada. Por que cresceste para tão longe, ti? Derramou. Não devias. Quem dera. Dessem-me a oportunidade de trazer duas – vamos fazer dois para caráter didático e pra funcionar o caráter paradoxal – almas sublimes. A sim, iria até a consolação e puxaria seu filho mais prodigioso. Nosso Andrade. Desconfio que ninguém a amou tanto. O outro seria Nelson. Seu maldito preferido, São Paulo. Seu carrasco. Ah! Que lindo encontro.

Mas veja. Os dois iriam se espantar. Saltar os olhos até lhes escapassem das faces já pútridas. Sub-mundo viraste tu, pois. Um iria sorrir, o outro desabar, voltar. Não sei dizer qual é qual, contudo.

Como é ridículo o exercício da imaginação. Desculpe, São Paulo. Como um filho perdido, talvez seja um pedido de socorro. Volto logo. As publicações não andam bem e não tenho saco para editores. Mas essa carta não é sobre mim.Você a engoliu também – Lá em cima tratei-a por tu, agora por você. Acho que isso não é correto. Desculpem – enfim, um beijo. As coias não vão bem. Minha São Paulo. Isso começou como uma crônica. Penso em fazer um diário, o que acha?portanto. Absurdo. São Paulo é a mãe dos absurdos. Deixa