I

Desliza.

Desliza.

Ela gritava.

Bem no tímpano. Ia longe. Todo o suor do mundo. O cuspe que se espalhava.

E então eu deslizava. Dan Brown. Paulo Coelho. Algumas americanas de meia idade. Da esquerda pra direita. E meu olhos se esforçaram. R$ 39,90. Não parava e eu não conseguia me concentrar. Calor do caralho. Como fedia.

II

Seus peitos eram enormes. Pálidos. As margaridas eram regadas em sua camisola cor de mel. Tetas enormes e molhadas.

Tinha esse hábito. Meio dia. Chegava com o pote. Arroz, feijão, bife. O pote azul.

Suava. Invariavelmente, suava.

Aquele cubículo. Mofo.

Calor do caralho.

III

Vera. Vera me encontrou num fim de tarde. Ela me viu primeiro e sempre dizia isso. Estava no banco. Pisava na minhoca. Ela já estava morta. Vera carregou seus peitos até nós. Eu e a minhoca. Desequilibrou-se. Firmou. Pescou meus olhos.

Minhocas não tem olho. Disse-me. Não tem mesmo. Ela jamais saberia. Meus pés em cima dela e ela jamais saberia.

Eu só usava verbos. Chamou-me pro quarto. O quarto de Vera. Sabia que eu era escritor. Jurou-me que eu era. Então, abriu a Amazon. Mais vendidos.

Desliza.

IV

Desliza.

Calor do caralho. Vera estava sempre ligada nos mais vendidos. Todo dia. Ela abria e anotava o nome de alguma novidade. Comprava todos.

Disse-me que amava literatura. Estava na faculdade e tomava sol. Era fim de tarde. Adorava tomar sol. Os raios nos meus poros. Ela me disse que fazia mal. Sim. Gostava.

Gostava de literatura também. Bandini, Arturo Bandini. Ri. Ela: não.

IV

Seus peitos eram enormes, de fato. Como o vestido pretendia. Dois olhos enormes a me olhar. Achei que a escreveria em algum dos contos. Era uma boa personagem.  Ela gostava.

Nua. De óculos. Abriu meu caderno. Sem janela. Seu quarto. De novo. Não entendeu a letra, me perguntou o tempo todo. Aquilo me irritou. Fechei os olhos. E por que não usa um notebook, porra?

Mutarelli.

Não entendeu. Nunca tinha ouvido falar. Calor do caralho.

V

Lourenço é calvo e explicava pra plateia, com os dedos, amarelos do tabaco, em riste, que tinha um caderno. Preenchia-o com qualquer merda, o fedor de uísque no ar. Não se interessou no papo. Mas continuei mesmo assim: quando pintava algum trampo, ele voltava lá, desbravava a merda, alguma coisa sempre se aproveita de lá. Não curtiu. Dá merda viemos …

VI

Sthepen King. Estava no topo. Mostrou-me o ranking dos que mais faturaram. Tá certo. R$ 15 milhões.. Nada mal. Compraria o Mutarelli e um vestido pra Vera. Riu.

VII

Nua.

Fechou o caderno. Devolveu-me. Eram verbos. Demais. Ação e corte. Corte.

Ia me fazer um escritor. Mestre em fazer adolescentes gritar. Chorar. Estava terminando a faculdade. Queria ser escritor, de fato. Vera ia fazer isso pra mim.

VIII

Passei as tarde com Vera. Ela já era formada e sabia das coisas. Vera me trancava no quarto. Trazia o pote. Azul. Calor. Às vezes vinha com a inspiração. Assim chamava. As tetas despencavam. Como pêndulos, balançavam. E os mais vendidos nos encaravam. Eu, pra tetas. Ela, pra eles. Gozava. Depois, voltava a me trancar. Era preciso. Fechava as janelas e o sol sumia. Escritor precisa ficar sozinho.

IX

Tá ruim. Vai, vai, desliza.

X

Vera caiu. Terça. Uma faca atravessou-lhe as tetas. Era terça e desliza agora vai. Morreu de desgosto. Culpa minha. Ação e corte. Saudades da Vera. Quando morreu, suas tetas sorriam pro ar.

(Imagem: Quando meu pai se encontrou com o et fazia um dia quente/ Lourenço )