Brotou um cisto na minha orelha e ela está de papo com o cabeludo de novo. Descobri que não sei escrever histórias longas. Não tenho imaginação. O resultado do concurso saiu. Na Paraíba minha prosa não é muito popular.

As primeiras palavras brotaram de novo. Uma a cada minuto. Deve ser o cabeludo e eu preciso deixar meu cabelo crescer. Ficar com cara de autor. Entrar pro meio e chamar o editor no inbox. Elogiar sua revista. Sua curadoria refinada e, aí sim, seria popular na Paraíba.

É preciso ser popular na Paraíba. Cada um ganhou uma menção honrosa na câmara municipal. Dez exemplares, um pra cada. Só.

Muito bem, editor. Bela revista. Tem um cantinho de página pra mim? Eu deveria me preocupar com o cabeludo. Não posso deixar meu cabelo crescer, brotou um cisto na minha orelha.

Descobri que só sei falar de mim. Autoficção está na moda e os premiados já a desprezam. Jogam tudo no mesmo bolo. Chamam de merda narcisista. Ok. Eles são populares na Paraíba. Estão certos. É preciso ter imaginação.

Vi uma foto de Guimarães com os jagunços. Vi um filme de Hemingway no bar, no meio de Cuba, tomando cachaça com os pobres. É preciso ter imaginação. Mas brotou um cisto na minha orelha e não posso deixar o cabelo crescer.

O cabeludo toca violão. Deveria aprender a tocar violão, ficar com cara de autor que toca violão. É uma boa ideia escrever e tocar. Um homem com imaginação. Vi no jornal que o premiado leciona música na universidade. Toca violão e ganha prêmios. Deve falar francês. E essa é outra boa ideia.

É preciso ser popular na Paraíba. Não sou do meio e aí fica bem difícil mesmo. Falta o enredo. Mete lirismo nessa prosa, rapaz. Sobra lirismo na Paraíba. Ele é premiado, o cabelo é grande, escorrido, cabeludo, toca violão e deve falar francês. Pronto. Lirismo.

Poesia. É sempre bom ser poeta nas salas do departamento de música. Músico com cara de autor, premiado, cabeludo, arrastando seu violão.  Fala francês e conjuga verbos corretamente.

Parece uma boa ideia. É legal ser autor com cara de autor. Os editores colocam a foto embaixo do conto.

Chegou um e-mail. Um convite. É um curso. Escrita criativa. O professor-autor desta vez não tem cara de autor, nem de professor. Não é cabeludo e como eles podem vender uma coisa dessas? Se vou pagar por um curso de escrita quero um autor com cara de autor. Cabeludo. Mínimo. Serragem no rosto. O professor-autor que ensina que editoras estão fora de moda e que o negócio é fazer os cursos que, aliás, ele mesmo dá. Auto-publicar-se-ei. Fazer um evento. Chamar seus amigos – não esqueça de seu professor. Ganhar vários tapinhas nas costas. Não vendeu. Resistiu.

Brota mais três mensagens do cabeludo no celular dela.

Vou operar do cisto e deixar meu cabelo crescer.

Ele dói.

(foto: Blog LPM)