Está uns cinco graus. Quinta-feira dos diabos. Eu ainda uso aquelas luvas furadas nos dedos pra pegar melhor na caneca. O lado esquerdo da minha cabeça dói no frio. O médico já me disse que não é nada. Pra eu parar de me preocupar com bobagem. Lembro que você também ria de mim. Aqueles dias que eu achava que ia morrer do coração. Eu tava sempre pronto pra ter um infarto. Ainda estou aqui. Não é muito fácil ainda estar aqui. Vi que casou com o cara de cabelo enrolado do seu trabalho. Minha postura tem piorado de uns tempos pra cá. Lembro que se excitava com meus ombros em cima de você. Pegava-os com tanta força e arranhava e mordia. Minha postura tem piorado. Eles foram pra frente. Parei de correr e acho que ia gostar disso porque agora durmo até as onze no domingo. Busco um café na cozinha e ouço uma velha gritar sobre umas contas atrasadas. Daí eu volto pra cama e acho que você ia gostar disso. Acho que ia gostar. Isso me lembra o ano que a gente morava na quitinete. Era tão apertado e fazia calor demais. Não tinha nem janela. Só duas portas, uma de frente pra outra. Elas faziam o vento se encontrar. A gente ficava de lado. Todos os cheiros do mundo se encontravam ali, no centro da nossa quitinete. Seu perfume vagabundo, o óleo do bife à milanesa, o detergente de dois reais, o veja mal espalhado pelo chão, o cheiro do ralo do banheiro, seu hálito, o remédio em cima da mesa, nosso suor. Tudo estava na quitinete número cinco. A única sem janelas. Fiquei sabendo que conseguiu um emprego de verdade e teve pena de mim quando te contaram. Te disse que ia pra Curitiba. Aqui é tão frio às quintas. Achava que ia ganhar dinheiro escrevendo e que ia curtir a vida sem àquela quitinete pra limpar. Nunca me livrei disso. Nunca. Acho que você conseguiu. Têm viajado cada vez mais. Queria ter conhecido a América do Sul antes dos trinta. Você odiava a Bolívia e falou que aquilo era sonho de maconheiro. Na verdade, ninguém deseja conhecer o Equador e sair por aí A América sempre me pareceu o mundo. Acho que isso é coisa de universitário que lê realismo fantástico demais. Eu li todos os esses bostas que me fizeram cultivar esse sonho. Nunca consegui sair daqui. No fundo, ainda moro em uma quitinete. Soube que casou. Soube do seu emprego novo e que têm um apartamento. Vai arrumar um bebê para chamar de seu e preencher seu casamento. Como sempre quis. É bom se encontrar. A vida não tem sido fácil desde então. Ando bebendo demais e isso soa tão clichê quando colocado no papel. Tenho me sentido fraco todo santo dia, emagreci, o lado direito da minha cabeça ainda dói como há vinte anos. Ainda me afogo nas mesmas merdas. Tenho saudade de mamãe. Foi nosso último abraço. Quando ela se foi. Foi a última vez que vi suas lágrimas. Acho que você de verdade. Tenho saudades dela. Desde então, as coisas tem piorado. Consegui passar por mais essa quinta-feira. Faz tanto frio lá fora. E você só fica ai parada em cima da tv. Num belo porta retrato.

Foto: Kyle Thompson