São Paulo é uma gangorra. Vai e volta. São esquinas e esquinas. Quantas esquinas! Eu nasci ali, veja bem. Cresci no meio do asfalto. Até os dezoito, os prédios me afagavam. Mas saí dali. Fui-me embora pra Pasárgada. Fui me esticar em outra cidade. Uma cidade com menos asfalto, menos prédios, menos esquinas. Menos cidade.

Agora, no auge dos vinte, São Paulo é uma gangorra pra mim. É muito estranho o que cresce nas minhas estranhas quando vou pra lá. Dá vontade de gritar. Parecido com uma angústia. Toda aquela gente. Parecem todos meio abobalhados. Indo pra lá. Indo pra cá. Meio que encurvados. Com a expressão fechada. Incomoda-se em São Paulo. Não há espaço.

Minha nova teoria é que as pessoas só não enlouquecem em São Paulo porque raramente olham para o lado. É uma catarse generalizada. Há sempre um outro lugar pra se estar. Um espaço, minúsculo, para se ocupar. Os vazios. São Paulo é uma cidade de vazios.

Está todo mundo meio doente por lá. Ando pelo centro velho. Tão velho, tão velho. Aquelas casas amareladas, os bordéis, os prédios de dois andares. Pelos cantos destes centros, as pessoas têm uma epiderme esverdeada, meio que puxando pro amarelo, há centenas deles envoltos em cobertores negros, com os cabelos desvairados. Mas os pedestres seguem. A uma vida a se tocar por lá. Ah! A Paulicéia. A Paulicéia desvairada de Mário.

Vivesse hoje Mário gritaria. Correria nú pela Consolação, em busca de afago. O Brasil desanda é ali. Todo o progresso de São Paulo descarrilhou o Brasil. Calma, calma, é rápido demais. Sinto saudades da São Paulo dos meus quinze. Ou daquela que não vivi. Parecia tão belo ser carregado pelos trens. Carregado em meio a tanto progresso e pela ilusão do progresso americano.

As artes, as artes paulistas. Dez espetáculos simultâneos. O paulista vê todos. De uma vez. Os museus e suas salas imensas de cinema. A tanto pra se ver. São Paulo é cidade pra várias vidas. Pena que estão todos doentes. E se morre cedo por lá. Aos poucos, devagarzinho, célula por célula, tanto que nem se vê. Mas morre-se, fatalmente.

Vivessem Lobato sentado em sua cadeira de couro à beira do mar da Sé e Oswald em seu calhambeque preto fosco pela Avenida Doutor Arnaldo e Mário a bebericar goles imensos de whisky no Ponto Chic. Vivesse. Vivessem esses, agora, nesta São Paulo catártica haveriam de estranhar. Não há quem não conheça e não estranhe. Esta São Paulo. A cidade para qual voltarei, ainda não sei porquê. Tu vives e até breve! São Paulo.

Imagem: Paulo Von Poser/ Magrini Artes