Mudei-me há dois meses. Estranhei. Meu novo bairro é o mais representativo da cidade. É um daqueles de classe média. Dessas classes médias que gostam de mostrar  que são. Há certo orgulho por fazer parte daquilo. Tipo um clube.

Meu bairro veste branco. As ruas são limpas e largas. Não há calçadas – não são numerosos os pedestres – mas tudo é arborizado artificialmente, o que da um ar de natureza aliada com o desenvolvimento urbano. Difícil às alamedas que não estão cheias de arbustos e plantas coloridas.

Eu volto de ônibus pro meu bairro. Só há uma linha – 229 – que faz um corte transversal por ele. Supermercados, restaurantes, claro, o shopping – a força motriz do meu bairro. Perceberam? O ônibus não passa pelas ruas residenciais. Os moradores que voltam às suas casas pelo transporte público precisam andar alguns metros para chegar ao seu destino. Não é necessário.

Mas o 229 é a mais estratégica linha da cidade. Ela passa pelos pontos que servem aos moradores. Afinal, eles possuem um clube/bairro só pra eles, mas não vão carregar suas sacolas até o porta mala da Hilux sozinhos. Jamais. O ônibus leva. Quem vai espremido nele. Eles carregam as sacolas, limpam os banheiros , servem os temakis ensopados de cream cheese e constroem os prédios.

Ah! Os prédios. Eles crescem a uma velocidade de 3,6 metros por segundo por lá. A especulação é mais especulativa que nunca aqui. São cinco construtoras e um número incalculável de imobiliárias espalhadas pelo meu bairro. Os prédios são robustos, com vidros em todos os ângulos e nomes em francês.

Tudo é à la mode Paris. Existe até uma Champs-Élysées aqui. Confesso que me decepcionei quando a vi pela primeira vez. Parece-me menos charmosas que nas fotos. Mas, é pela Champs pé vermelho que desfilam os casais de meia idade, sempre calados e exaustos, com seus cães. Todo mundo tem um cão por aqui. Um dia, impressionado, contei, foram 60 cães para 55 donos. Eles têm roupas, proteção para as patas e bolsas para serem carregados. À la mode. Até eu tenho um. Não é bem meu, mas ele está lá. Faz xixi na minha varanda e me olha para encher sua tigela. Levarei ele pra passear na Champs um dia.

Todos são terrivelmente pálidos por aqui. É incrível. Os prédios, todos, possuem piscinas, quadras e churrasqueiras. Por que não usam? O sol dá as caras quase todas as manhãs. Não sei, esses homens e mulheres e crianças, tão pálidos. Falta-lhes vitamina C.

Através do vidro, vejo as mulheres com os cabelos tingidos nas pontas. Sempre com celulares na mão e meio que entediadas. Os homens parecem sempre engenheiros ou advogados. Vestem ternos e dirigem um carro gigante. Junto com outros tantos carros gigantes e outras tantas mulheres entediadas e outros tantos advogados ou engenheiros, foram o trânsito do meu bairro. Tão infernal quanto São Paulo. Eles buzinam e não entendem. Moram a quinze minutos do trabalho. Com aquele trambolho, chegam em casa em quarenta. Mas o ar condicionado é tentador, de fato.

Apesar disso, como já disse, todos são felizes por morar aqui. Mas, de tudo, o que mais se orgulham, são do shopping de lá. As esposas colocam vestidos floridos, desses que se espalham quando chegam na cintura. Os homens tiram o terno e colocam suas bermudas cáquis e camisetas polos. Os adolescentes, calças pretas rasgadas no joelho e fones de ouvidos. Até os cachorros vão. Todos vão felizes para o shopping.

E como não sorrir? Lá têm supercercado, academia e cinema. Livraria, loja de roupas e praça de alimentação. Não há outro lugar para se estar num sábado a noite. Todos vão. Há filas de carros no estacionamento. Os olhos brilham. Os pisos brilham. As pessoas brilham. O bairro brilha. Os trabalhadores servem. Há shows de stand-up aos sábados e filmes hollywoodianos aos domingos. Até cultura têm lá. É lindo. O shopping.

Esse é o meu bairro. Cai aqui há dois meses. Habito encurralado em um quarto andar qualquer. Meu prédio têm piscina e academia. Salão de festa e sala de jogos. É aqui dentro, no meu prédio, que vejo a derradeira característica do meu bairro: elevadores de serviço.

Chego de ônibus. Cumprimento o porteiro na entrada do elevador. Ele traz cinco impressionantes sacos de lixo. Há três. Dois sociais, um de serviço. A gente espera. Somos iguais. O social abre. Entro. Ele fica. Pergunto. Ele ri e diz que não. Aponta com o rosto para o espelho. Olho. De costas, percebo, o porteiro não é tão pálido quanto meu vizinho. Deve ser o teto de vidro do elevador de serviço. É lindo, o meu bairro. Ele é de classe média.

 

(imagem: Em Cápsulas/ Lourenço Mutarelli)