Se você tem até 30 anos, provavelmente faz parte da geração que conhece e sabe o que é youtube, snapchat ou uma página no facebook (se você tem mais de trinta anos e sabe o que são essas coisas, não se sinta ofendido, você verá que a intenção é criticar essa população de jovens).

Considerando essas tecnologias atuais, com frequência observamos que, ao andar na rua, os celulares estão tomando conta. Caminhamos e ouvimos música, caminhamos e respondemos mensagens, sentamos na praça e navegamos em redes sociais, conversamos com as pessoas e aproveitamos para assistir os snaps etc. O mundo acontece na internet,  não mais no ambiente físico. Já estamos cansados de argumentar sobre os prejuízos sociais que isso causa. Um deles, por exemplo, é a falta do contato face a face. Não estamos mais sob controle da reação que o outro tem quando eu digo alguma coisa. Não estar em contato com outras pessoas na hora de relacionar-se com elas, torna, muitas vezes, extremamente mais fácil falar certas coisas sem olhar nos olhos, sem estar presente para ouvir a resposta, ali, sem ser interrompido.

Acredito que tudo isso tenha contribuído para a onda de ódio – ou melhor, o tsunami de ódio que estamos vendo no cenário atual. Convido o leitor a olhar para suas redes sociais, abrir alguma notícia que fale sobre algum assunto mais polêmico, como homossexualidade, aborto, preconceito, questões de gênero e socialismo x capitalismo. Os resultados que eu encontro são milhares de comentários infundados, preconceituosos, segregacionistas dentre tantas outras barbaridades, contendo, ainda, centenas de curtidas cada um. Mas, por quê? Porque as pessoas que deveriam ser o futuro do país estão se imbecilizando? Ao invés de ser o futuro, estão colocando o mundo numa guerra virtual e social.

Notadamente o Brasil passa por uma de suas crises políticas mais sérias de sua história, e, de uma forma ainda não compreendida, um país, antes desinformado, no qual as pessoas desconheciam qualquer coisa que se passava em Brasília, agora, política passou a ser assunto na fila do pão. Fazendo uso do ditado popular: está na boca do povo.

Tal movimento dos grupos sociais é realmente muito importante para o desenvolvimento de uma nação. É preciso que falemos sobre política. É preciso que entendamos o que acontece lá no distrito federal e como isso impacta diretamente em nossas vidas. E, hoje, cada vez mais, as pessoas estão informadas sobre o que acontece no ninho de cobras brasiliense. Esse é o lado bom da situação.

Mas, qual é o problema disso?

Elenquei dois pontos essenciais:

 

  • A desinformação histórica, reflexiva e de fatos. Eu tinha o costume de olhar certos comentários de notícias que eu achava interessante. Não sei se eu sou masoquista, ou se sou apenas idiota mesmo. O que se observa são opiniões proferidas sem o menor embasamento informativo, teórico e factual. As pessoas leem textões lacradores no facebook, e assistem vídeos de opinião no youtube, e saem proferindo isso como se fosse verdade. Isso não seria um problema se fosse uma ou outra pessoa. Mas o fenômeno é extremamente grande, envolvendo um número assustador de brasileiros.

 

  • O discurso de ódio proferido nas redes sociais e sua influência na cultura e na política de uma sociedade. O que importa é “lacrar”. Não vale a pena tentar estudar o lado do outro para reconhecer as fraquezas do meu lado. O que importa é quem vai vencer essa batalha.

 

Baseando-se nesses dois pontos, vemos, então, uma mudança de cenário: ao invés de sermos controlados pela globo, somos controlado pelos youtubers e por posts lacradores estilo Jair Bolsonaro (estilo Jair Bolsonaro significa um discurso raso e superficial, com mantras estereotipados de ideologias, usados na intenção de conquistar eleitores).

Pareço exagerado? Pois não sou. Seguem alguns exemplos:

Joice Hasselman é uma youtuber conhecida por falar sobre política. Geralmente envolve muita informação vinda de Brasília e ataques a politicaiada. A mulher conta hoje com mais de 400 mil seguidores. No geral, ela informa muito bem, mas ela profere frases que crianças de 13 anos e tiozões bonachões gostam: ataques ao PT e frases de efeito da extrema direita. O segundo exemplo que temos, conta com pouco mais de 1 milhão de inscritos em seu canal do youtube: Nando Moura. É um youtuber/rockeiro que também fala sobre política. Faz sucesso por, desrespeitosamente, falar mal de outros youtubers. Hora ou outra compartilha “análises políticas” em seus vídeos, angariando milhares de curtidas, e ganhando cada vez mais seguidores. E, um terceiro exemplo, não tão extremista, mas igualmente influente, e por vezes, sem fundamento, temos Felipe Neto, um youtuber de mais de 10 milhões de inscritos, na maioria das vezes faz vídeos inúteis para quem deseja se informar sobre alguma coisa, mas constantemente tenta dar opiniões sobre questões sociais e políticas. Seu discurso não é tão radical quanto os dois primeiros mencionados acima, mas ainda assim, possui incoerências.

Mas, o que essas pessoas têm em comum?

Resposta: Todas elas possuem seguidores fiéis!

Sim! Quase como os comensais da morte seguiam Voldemort na série Harry Potter. E isso funcionava com o seu “líder”, com uma posição ideológica. Seus pensamentos eram compartilhados com seus seguidores, os quais saiam comportando-se para com outras pessoas de forma a multiplicar e fazer acontecer seu projeto de uma sociedade “limpa” de certos tipos de pessoas. Parece que nesse tipo de relação, acabamos, muitas vezes, achando que estamos agindo para um bem maior, e que não somos controlados por ninguém. Será mesmo?

O comportamento da “massa proferidora de opiniões de youtubers” talvez funcione assim:

Passo 1: eu assisto o vídeo do youtuber que eu gosto e admiro. Passo 2: eu ouço a opinião proferida nos vídeos. A pessoa faz voz de inteligente, podendo ser identificada como alguém que domina a didática e a oratória. Passo 3: o vloguer é tão caristmático, e faz expressões tão sérias e inteligentes que eu não tenho outra alternativa senão acreditar no youtuber. Passo 4: eu saio reproduzindo no meu meio social as opiniões do meu youtuber preferido.

É isso que acontece quando ficamos sob controle do que os outros dizem para nós como verdade, ao invés de estarmos sob controle do que nós lemos e estudamos. Ao invés de procurar embasar-se em fontes mais confiáveis, que tenham um estudo metodológico e científico por trás, damos preferência à espera de uma explicação mais prática, como um textão lacrador no facebook ou youtuber carismático que faz eu “entender” determinado assunto.

As pessoas falam de capitalismo, comunismo, terceirização e previdência, que são assuntos extremamente extensos, vastos, que exigem muita leitura, e agem como se fossem esplêndidos conhecedores de ciências econômicas, ciências política, história, filosofia e sociologia. Vemos guerras de esquerda x direita, contudo, se tentarmos achar a essência dos argumentos, percebe-se que são pessoas que seriam facilmente identificadas como público desses três youtubers mencionados acima.

Para finalizar um texto um tanto quanto desesperançoso em relação aos próximos anos, trago, ao final, uma fagulha que pode reanimar-nos em nosso engajamento pela melhora do mundo (pelo menos o meu engajamento é mantido por esse pensamento): nossas ações modificam o mundo! Modificar para o “bem” ou para o “mau” vai depender de sua ação. Por meio de ações pequenas é possível pensar diferente e difundir isso, mesmo que signifique remar contra a maré. Ações pequenas podem levar a grandes revoluções no futuro. Torço para que saibamos nos encaminhar à isso, pois ações pequenas também levam à intolerância, ao ódio, e às guerras.

(crédito imagem)

Texto colaborativo de Felipe Boldo