(havia quatro pedras, uma trepando na outra e a corrente marítima)

E

– A vida é amor e morte. Caralho.

L

– É possível escapar do amor. Amor ou morte, então

E

– Jura?

L

– Lógico. Uma pessoa fechada pro mundo, por exemplo. Pouco lhe importa o amor. Simplesmente, caminha pra morte.

E

– Não é tão simples assim. É orgânico. Cresce com a gente. É a maldição dos céus. Ninguém passa uma vida sem gozar. E gozo é amor. Amamos tanto quanto andamos.

L

– Sei lá. É foda, mas dá. Há gozo sem amor, o que não existe é o contrário.

E

– Dá?

L

– O quê?

E

– Não amar?

L

– Já disse. Eu acho que é só questão de preencher a vida com outras merdas até a morte chegar.

E

– Você não conseguiu. Nem eu.

L

– É foda. Não é fácil, eu sei disso. Mas prefiro acreditar que alguém passou por aqui e conseguiu. Alguém que não tenho enlouquecido.

E

– Então

L

– Então o quê, porra?

E

– É impossível

L

– Você tá drogado.

E

– Eu não perdoo meus pais.

L

– Por quê?

E

– Eles amaram e treparam. Amaram ou treparam. E eu sou fruto dessa merda. Agora amo também. A gente joga o jogo de deus ou de zeus ou de Alá. É tudo pra perpetuar.

L

– Tudo é.Você tá parecendo um adolescente deprimido que ouve bandas melodramatigóticas irlandesas e chora porque não se encaixa no mundo.

(soca-o no braço)

E

– Você que chamou. Eu tava de boa no quarto.  Mas, e pra você?

L

– O quê?

E

– o que é a vida?

L

– É isso

E

– …

 

L

– É exatamente isso aqui. Tudo isso (aponta ao redor). A vida é ficar se perguntando o que é a vida sentado em uma pedra e chomingando em frente ao mar. Brigar por jogos e caçar fodas. É votar. Ser de esquerda e se achar melhor que todo mundo por isso e trair quem se ama. É preenchimento.

E

– Porra, depois eu que sou melodramático.

L

– Pensa, olha em volta. Tudo que todo mundo tem a dizer é isso. Masturbação.  Eles bostejam sobre seus próximos passos e caminham no nada como se fosse possível cada um deles ser especial.

E

– Perspectiva Romântica (ri)

L

– Pode ser. Nenhum deles passou dos vinte. Sabiam das coisas. Estou caminhando.

E

– Minha ex me chamava de Castrinho.

L

– Se tá zoando? (gargalha pro nada)

E

– Não, é sério. Um dia ela viu uma foto dele em um livro de poesia. Viu que ele era preto e poeta. Falei pra ela esquecer. Mas não rolou. Não ligo pro racismo, mas Castrinho é pra foder.

L

– É fofo. (fazendo bico)

E

– Diz isso porque é branco.

L

– O que tem a ver?

E

– Ela não te chamaria de “Alencarzinho, meu bebê”. Seria mais, “Meu poetinha, lindinho”.

(riem)

L

– Tão merda quanto. E cara, esse papo de se surpreender com poeta preto é passado. Tem um monte por ai hoje em dia.

E

– Jura?

L

– Sim

E

– Tem tantos que ela precisou ir pro século XIX pra achar um apelido poético pra mim

L

– A Flip deste ano só tem escritor preto. Mas, então, como você pode dizer que não liga pro racismo?

E

– Pro dela, não. Ela só dizia essas merdas porque não achava de verdade que eu era poeta. Não daqueles que iam colocar poeta (desenha o ar) na ficha do hotel. Pra ela, tipo, era mais um passatempo de adolescente preto de classe média que quer fazer coisa de branco de classe média. Não é a mesma coisa. Não entendia quase nada. E veja a foto dos curadores da flip. Poetas, brancos e ricos. Eles nos dão as migalhas pra outros brancos ficarem satisfeitos.

L

– Pra defesa dela e da flip, suas histórias não tem sentido mesmo

E

– Escrevo sobre a vida

L

– Qual vida?

E

– A de todo mundo. É tudo igual.

L

– Acho que ela  tem razão

E

– Também acho

L

– Bora, Castrinho. A vida é curta.

(a maré continua seu trabalho. levantam e vão pela areia)

(rindo) 

(imagem: https://camilosolano.wordpress.com/)