Agora eu posso amontoar os travesseiros. Se tem uma coisa que ela odiava era que eu os amontoasse na beira do colchão. Ninguém dorme assim. Pelo amor de deus.

Agora eu posso.

Estava tudo errado. Descobri que só fazia o ritual pra ela notar. Amontoar era muito ruim. Caralho. As costas doem pela manhã e essa era só mais uma das minhas manias antropofágicas. Era foda o olhar que ela fazia quando estava certa. Os olhos pro alto e a cabeça balançava três vezes. Ia, voltava. Ia, Voltava. Ia, voltava. Sabia mais. Ela sabia mais da vida mesmo. Sempre fui meio desajustado.

Como esse cigarro com filtro. Nem chega a corroer meus dedos. Esse era meu medo. Cigarros correm e o cheiro era horrível. Assim que deve ser. Mas isso ela odiava também. Cigarros que correm. Não sou sua mãe. Se quiser fumar até seus dentes caírem, faça. Longe de mim.

Não fiz.

Viver era perigoso. Citei-lhe Borges e ela riu tanto que se babou toda. Era bonito seu riso. Um riso chorado. Nunca respondia quando lhe citava Borges ou todos esses velhos da literatura.

Nada a admirava mais que a si. Era natural. Não me surpreendia. As pessoas são assim. Eu, ela e Borges.

Você é tão entediante.

As pessoas são mais infelizes por serem, afinal, todas iguais, do que por serem diferentes… Não é muito simples descobrir que não é especial.

Maconheiro fede. Eu me perfumava com as merdas que ela comprava no boticário para a rinite dela não atacar.

A cada dois meses. O sexo era frágil, mas vê-la se contorcendo em contra-plongée era o ponto alto da minha quinta. Ficaria horas ali a repetir a fita. Boca a boca a pelos a língua a língua a carne.

Passei horas no meu caderno de escrever merdas e cheguei bêbado. Foi na sua sapatilha. Pedaço do meu estômago no chão. Células e suco biliar.

Filha da puta.

Ela chorou no sofá e eu fiquei jogado no box. O chuveiro desligado. Vácuo amargo.

Vírgula.

Eu era só mais um bêbado de merda. Estava igual a meu pai. Igual a meu avô. Quem nasce da merda fica por lá. Bebia e enganava as pessoas. Quase trinta e não sabia o que colocar na ficha do motel.

Vai logo. Vai logo. Só porque leu três romances gregos no original você acha que é melhor que seu pai. Não é. Mesma merda.Com sangue e os olhos escorriam pelo piso frio do banheiro.

Às vezes ela olhava pro retrato de meu pai e começava a chorar. Foda-se. A gente é igual mesmo. O mesmo nariz de batata e o talento pra foder com a vida dos outros. Ela odiava e eu também.

Meu avô morreu no bar. A cara atolada em um balcão ensebado e o coração do tamanho de uma jaca. Foi uma morte bonita. Bota lirismo nessa vida. Penso no meu vô naquele bar. Ele devia estar no gênio mais maldito que alguém pode chegar. Fecho os olhos e tento reviver a cena. Meu pai ainda tá vivo.

A mãe dela odiava. Família desestruturada. Melhor assim. Meu avô era poeta e morreu esguichando ódio pelas artérias.

[…]

Eu fui do box pra calçada em poucos meses. Minha testa estava aberta. Havia um buraco. Terceiro olho. Ela ficou ajoelhada lá. Chorava pra caralho. As pessoas riam de mim. E elas riam do meu pai também. E do meu avô. Formaram uma roda. A gente tem uma paixão pela desgraça. Você chega do trabalho e liga a televisão pra ver o sangue jorrando.

Da calçada não passa.

Ela se levantou. Eu estava com os olhos fechados. Vi. Ela se levantou. Era o terceiro olho. Fechou. Quando abri. Abri. Havia acabado. Não tinha cigarro com filtro no bolso e o olho havia se fechado. A vida também. Quem nasce na merda morre por lá mesmo.

(imagem: Lourenço Mutarelli)