Lembra quando sua mãe te lembrou que eu era preto? E quando ela te perguntou se você não percebia isso. E quando ela falou que a casa agora fedia. E que isso era normal, porque, preto tem um cheiro diferente mesmo. Um cheiro que impregna no estofado da linha alta. E você trazia um preto pra jantar todas as noites na casa dela então isso iria acontecer mesmo.

Lembra daquela vez que eu menti pra você e você chorou por um mês? E ela te lembrou que  namorar preto era assim mesmo. E que em preto não dava pra confiar mesmo. Era normal. Isso ia acontecer mesmo. Tudo isso era pra você aprender. Depois desse dia ela nunca mais conseguiu respirar o mesmo ar que eu. Eu chegava e ela saia. Mesmo assim, eu curtia sacar o olhar dela pra mim. O olhar em direção ao preto que jantava com a sua filha. Eu curtia. Aquela porra era puro ódio e a gente ficava nesse jogo de se olhar e se odiar mutuamente. A atmosfera da casa pesava quando o preto chegava. E isso eu também curtia.

Você sempre me disse que ela era uma boa pessoa mesmo assim. Que aquela parada era cultural e pronto. Não era nada pessoal. Não era um racismo fodido desses que eu tropeçava na rua todos os dias. Desses que me fazia ser acusado de entrar em um lugar. Era uma mais leve. Quase calmo. E eu quase me convencia disso. Até eu olhar o olhar dela e a gente recomeçar nosso jogo.

Acho que foi sua mãe que terminou com a gente. Você disse pra ela que me amava, apesar disso. E ela não entendia nada. Tinha te educado e te pagou escola particular até o final do ensino médio. Tinha tanto menino bonitinho na sua sala, ela te dizia. Um dia peguei ela dando socos no ar. Ela chorava igual criança quando se perde dos pais. Ela murmurava, com o boca torcida para os próprios ouvidos. Ela se perguntava aonde tinha errado pra filha gostar de preto.

E o seu pai tentou acalmá-la. Levanto-a. Deu três tapas de leve em sua cabeça e beijou sua testa. Ele olhou pra porta e me viu lá. Ele procurou minha essência. Olhava o mais profundo que seus olhos rasgados podiam chegar. Cavava-me. Entendi que aquilo era um pedido de desculpas. Acenei e fui embora.

Quando descobriram que o primeiro namorado dela era preto e que sua avó a trancou em casa por semanas até o seu avô dar um jeito no preto, eu senti pena. Mas curti. Eles disseram pra ela que o preto havia se casado com outra e que era assim que deveria ser e que preto era assim mesmo. E ela engoliu a lorota e ficou por isso mesmo.

E eu te disse que colocaria sua mãe nas minhas histórias. E que ela havia mudado minha vida e você só dava risada. Mas eu te disse. E eu coloquei. E você me disse pra esquecer. E disse que amava. E eu disse que eu também. Mas eu menti. E quando a gente finalmente terminou, eu curti. Era o ciclo. Mas sinto falta do olhar de sua mãe.

(foto:  Poty Lazzarotto/ gravura)