Desce fino. Uma linha que desliza pelas costas. Acho que quebrei. O sangue, aos poucos, caí sobre a cerne. Derrama. É um líquido adocicado, moribundo, fraco que me sobe pela boca. Não há água para limpar. É tudo seco e sem graça. A cidade segue sua rotina.

Só eu. Eu fico aqui deitado sentindo meu sangue escorrer.

Queria ter tido um emprego. Aquele cara disse que eu era meia boca. Que minha poesia era rimada e que isso não estava mais na moda. Desdenhei dele. Também estava na merda. Estava lendo os vencedores. Li todos os finalistas do último Jabuti, mas só percebi porque eles ganharam depois que os procurei um por um no Facebook. Vi todos.

Você desrima. Para de inventar essas merdas subjetivas. Volta a tirar as ideias dos sonhos. Escreve sobre o cavalo branco alado sobrevoando pelo céu da metrópole. Sem violência. Sem sangue e sem esperma. Tudo é limpo e ninguém fode com ninguém.

Investi nas camisas e calças bem alinhadas. Entrei na livraria e fui direto nos vencedores. Li todos. Deixei a barba crescer e arrumei uma namorada com cara de intelectual. Ela estava na faculdade e seus amigos tinham barbas fodas e camisas cor de vinho. Tinha parado com a autoficção. Escrevi em terceira pessoa e inventei que era um cara branco que escreve em cafés do centro da cidade.

O Paulo Coelho tem razão. O negócio é esoterismo e mansão na quinta avenida. Comprei um óculos e fui em festivais literário. Puxava papos com professores medíocres que diziam que Bukowski era bom, mas que sua poesia não prestava. Assisti àquele seminário daquela professora sobre como não devíamos mais ler Céline porque ele apoiou o nazismo e que não deveríamos mais endeusar Picasso porque ele foi cuzão e não ajudou Max Jacob a sair da cadeia.

Você recusa as fodas com as mulheres de sempre. Lê teoria literário e vê se aprende rápido a falar direito. Matricula no francês e bebe vinho.

Ela leu minhas histórias e disse que não prestava. Volta pra casa e deixa essa barba crescer mais um pouco. Lê mais poesia e não falta no francês.

Ela cospe em você com a cara cheia de cerveja artesanal e ri do seu inglês de merda. Escritor é o caralho. Começa a fumar maconha e ela ri do seu baseado todo torto. Atura as ninfetas maconheiras na sua casa.

Não soca o calouro que te chamou de favelado. Eles riem porque você muda o tempo verbal no meio do texto. Faz cara de burro e finge que não entendeu. Ela riu porque você nunca escutava jazz para escrever e o barbudo que ganhou o último jabuti sim. Eles riem porque você nunca publicou nada, nem foi resenhado por um crítico da Folha de São Paulo, porque nunca fez faculdade e porque ainda escreve essas merdas que são ruins mesmo.

Você pega um machado que o avô dela trouxe da China e arrebenta sua quitinete toda. Liga o gás e empurra pra dentro do pulmão tudo que pode. O machado quebra e então você joga as roupas pela janela.

Ele disse pra ela que eu era meia boca e ele tinha uma barba foda e ele recebeu um e-mail da companhia das letras pedindo para negociar e ele ganhou o concurso de poesia da faculdade e ela disse que eu era favelado e preto e que nunca tinha visto escritor favelado e me mandou procurar um emprego e  mesmo depois de tanta teoria ainda não tinha aprendido o papel do tempo verbal na ficção e eu me joguei pela janela e estou aqui, olhando a cidade.

(foto: pixabay)