O cachorro estava de sacanagem. Ele mijava a cada dez metros na perna dela. Sua dona, uma velha com a cara esticada, dizia: oh! Mandava-o levantar e voltava a andar com um sorriso postiço no rosto. Dez metros depois, ele fazia a mesma coisa. Ela também. Eles estavam dando voltas no lago. Acompanhei essa cena por duas horas. Aqueles animais estavam se matando mutuamente. Senti pena. Na quarta vez que eles passaram por mim e o desgraçado mijou bem na minha frente, eu fui até lá.

Com licença, dona? Tudo bem? Ela não me respondeu. Olhou-me de cima a baixo com uma cara de desdém. Adoro as caretas que essas velhas que moram em um condomínio com área gourmet fazem às pessoas que não são do clube. Para as pessoas que não estão levando seus cachorros para passear em uma terça feira à tarde.

A senhora não está vendo?

Eu te conheço? Ela perguntou.

Não. Eu só quero saber se a senhora não está percebendo que esse cachorro está de sacanagem com a senhora. Olha pra ele. Olha pra sua fuça. É só olhar. Seus olhos esbugalharam e começaram a olhar para o lado. Acho que ela quis pedir socorro. Mas não tinha ninguém. Era terça-feira à tarde. Ela puxou o cachorro para si.

– Eu não estou entendendo o que você está falando. Preciso ir, desculpe.

Ela deve ter sacado que se tratava de um mendigo que acabou de cheirar uma boa dose.

– Ele está mijando a cada metro e a senhora diz a mesma coisa. E depois ele mija de novo e a você lamenta e ele ri da sua cara. Qual é. Não pode ser. Se eu mijasse na sua perna umas vinte vezes seguida, estaria tudo bem?

Ela saiu correndo. Desesperada. Vi em seus olhos. Enquanto ela corria, o cachorro se esforçava para mijar de novo. Ela teve que ceder. Aquela cena era horrível. Que relação horrível. A velha bufando, tentando sugar algum ar para dentro dos pulmões. Nada. Daí o cachorro virou pra mim. Olhou-me bem nos olhos, deu uma gargalhada e piscou. Ele mijava e piscava. Eu juro que ele piscou. Saí correndo atrás dele. A velha se desesperou, achou que eu a queria. Ela desequilibrou a passada e deu de cara no chão. Aproximei-me. Peguei o cachorro. Ele ria demais. Olhava pra ela e pra mim. Ria. Que filho da puta fodido.

– Vocês deveriam estar na coleira.

Concordei. Tirei a coleira dourada de seu pescoço. Ele só ria. Sólomom, em letras garrafais. Estava hilário. A velha continuou lá, no chão, tinha começado a chorar quando nos afastamos dela. Sua cara toda ensanguentada. Ele piscou de novo pra mim. O sol refletia no lago e nas nossas cabeças. Ele se virou e saiu fora. Foi ganhar a sua liberdade. Sentei na beira do lago, acendi o último cigarro do maço e as sirenes começaram a entoar. Fechei os olhos por um segundo e comecei a gargalhar. Deitei a grama e pisquei pra velha. Ela estava morta com os olhos no meu cigarro.

(foto: Rafael Coutinho/ www.posfacio.com.br/2011/06/20/10-perguntas-e-meia-para-rafael-coutinho/)