Desde criança fui estimulado pelos meus pais a viver de forma diferente este dia.

Logo cedo quando acordava, já sentia aquele clima diferente. Não por ser um dia de não comer carne. Ou porque certamente teria peixe no almoço. Mas por que aquele me parecia um dia repleto de mistérios.

A impressão que eu tinha era que só meus pais, em especial a minha mãe por sua maior expressão religiosa, detinham os segredos que acercavam a áurea misteriosa daquela sexta feira.

Eles pareciam nos dar dicas, de como proceder para decifrar as incógnitas da sexta santa.

Ao primeiro encontro que tinha dentro da casa com meu irmão, logo minha mãe se aproximava e nos advertia: Nada de brigar hoje, nada de xingar, falar alto, brincar lá fora.

Hoje é dia de ficar quieto.

Como qualquer outra criança nesta situação, ao impacto destas palavras ficávamos ressabiados. Questionávamos então mamãe a respeito de tantas restrições. Ela como que dando mais um dica, nos dizia: Hoje Jesus morreu!

Ficava então intrigado com esta informação. Jesus morreu!

Quem é este Jesus que morreu, e que por sua morte me impede brincar?

Em seguida meu pai nos advertia. E se fizerem arte hoje, não farei nada. Mas amanhã vocês vão se ver comigo!

Aí que eu ficava mais intrigado ainda. Puxa este Jesus é tão importante, que até meu pai o respeita…

E assim seguia o dia, cada refeição, o temor, o cuidado para não restringir nenhuma regra. E a dúvida que ainda pairava de quem era Jesus que morreu naquele dia.

Quando já não me aguentava perguntava pra minha mãe: Mãe quem é Jesus? Por que Ele morreu?

Então docilmente minha mãe explicava que Jesus foi um homem muito bom, que tinha morrido pra nos salvar dos nossos pecados.

Eu nem sabia o que era pecado, mas o peso daquela palavra me fazia sentir que devia ter sido algo muito importante.

Ela continuava então dizendo que aquele era o dia do aniversário de sua morte.

Embora começasse a compreender um pouco do mistério daquele dia. Começava a entender aquele sentimento de luto que nos tomava conta do coração. Uma última informação fazia com que ficasse mais curioso ainda. Isso quando minha mãe dizia: Quando vocês forem grandes irão entender o que estou falando…

Então hoje, mais de duas décadas após esta época, enfim encontrei uma resposta para aquele mistério de sexta feira santa.

Entendi que se tratava do Mistério da Salvação.

Que jesus Cristo foi o filho de Deus que veio ao mundo e se fez carne como cada um de nós.

Que ele viveu pregando o amor, o perdão dos pecados e o reino de Deus.

Compreendo que o pecado é tudo aquilo que nos afasta do amor de Deus e do próximo.

E que Jesus nos deu sua vida, do alto de uma cruz, doando até a última gota de sangue, para nos dar a salvação, ou seja, o acesso que antes era restrito por conta de nossos pecados, ao Céu.

Aprendi que se me deixar amar por Ele e seguir seus mandamentos, poderei eu adentrar este Céu, este Paraíso.

Aprendi que Jesus morreu não só pelos seus amigos, mas especialmente por amor aos seus inimigos, aqueles que o crucificaram, dando assim a oportunidade de que através do arrependimento e conversão possam também redimidos de seus pecados, adentrarem o reino de Deus.

Aprendi que este foi o maior gesto de amor que a humanidade já viu.

Aprendi que a Sexta-Feira Santa é o dia de relembrar este mistério da Salvação.

Dia de depositar diante da Cruz meus pecados. Dia de refletir sobra a vida e a existência.

Dia de viver o luto da morte de Cristo. Mas com a esperança e a certeza de que ao terceiro dia ele ressuscitará.

Desejo uma ótima sexta feira santa a todos!

Aos que creem e também aos que não creem.