Tic-tac. Era o que o eu ouvia. O que tinha acontecido? Parecia que de repente percebi minha existência. Tic-tac. O que era esse barulho? Ele causava receio. Como isso é possível?

“Tic-tac” insistia. Tentei andar, mas eu não tinha pernas. O que era isso? Eu tinha medo, mas o medo não era incapacitante. Parecia fazer parte de mim. “Tic-tac”. Percebi que eu conseguia me mover. Se eu quisesse ir para frente, eu conseguiria ir. Mas não tinha contato com nada. Não tinha pés pisando sob um chão, nem vento tocando minha pele. Nem pensar com uma linguagem específica eu parecia saber fazer. Eu só parecia compreender certas coisas. Mesmo sem linguagem. Mesmo sem sensações táteis. Apenas com a audição. Tic-tac. Precisava desesperadamente encontra-lo. E eu sentia isso. Seja lá o que eu fosse, eu sentia que tinha que encontrar o tic-tac, e destruí-lo.

De repente percebi que eu não sabia o que eu era. Tentei olhar para baixo. Mas nada existia. O lugar que eu estava não parecia existir. Logo eu não tinha um corpo. Talvez eu não estivesse nem mesmo em um lugar. Tic-tac. Pare com isso! Fui para frente. Então algo diferente começou a acontecer. Ouvi outros barulhos. “Ele se mexeu”. Sim, foi isso que ouvi. Como eu me lembro disso tudo? Não sei. Estou apenas descrevendo a sensação do momento. E então senti algo como uma pressão. Gostei daquilo. O barulho agradável pareceu se juntar com outros barulhos. Pareciam outros seres como eu. Comentavam sobre mim. Era isso que eu sentia. Senti-me bem, então. Algo como proteção. Eu estava bem. Os outros seres iriam me proteger.

Passou um pouco de tempo. Não sei dizer quanto. Talvez muito tempo, talvez pouco. A noção de tempo não existia ali. Não sei te dizer. O caso é que parecia que o espaço estava me comprimindo. Além de que, agora, eu sabia distinguir os barulhos que ouvia. Havia um deles que era frequente, parecia quase fazer parte de mim, mas eu sabia que não fazia. Esse barulho tão agradável sempre me pressionava, e me chamava de Vitor. Obviamente, não fazia sentido para mim, mas era agradável. Comecei achar que essa coisa barulhenta que me dava um nome, era eu mesmo. Só poderia ser eu. Acho que estava entendendo um pouco sobre mim. Tic-tac. Esse barulho infernal nunca sumia. 

Ficava cada vez mais apertado ali onde eu estava. Agora eu parecia sentir certas coisas me comprimindo, me envolvendo e me apertando. Eu não conseguia ir mais para as direções que eu queria. Só ficava ali, naquela posição estranha e desagradável. Agora sem me mexer. Mas eu não sabia o que eu era. Isso teria que acabar. De repente a coisa barulhenta, que me chamava de “Vitor” começou a ficar agitada e fazias barulhos sem parar. Senti-me balançando. Tic-tac. Barulho infernal. Assim que eu soubesse de onde ele vinha, eu iria destruí-lo.

Mas espera! Dessa vez tinha algo acontecendo. Tinha algo realmente muito perigoso acontecendo. Eu estava sendo empurrado. Eu só queria que o espaço aumentasse, não era para sair dali. Mas eu continuava sendo obrigado a cada vez mais tentar sair por um pequeno lugar. Reações estranhas aconteciam comigo, e eu tinha mais medo do que tudo que já passei na vida.

Então eu descobri que eu tinha um corpo. Eu estava sendo segurado. Minhas pernas puderam se esticar e eu abri os braços. Outra sensação medonha aconteceu. Senti minha pele entrar em contato com uma substância esquisita. Gasosa. Ela passava por mim, parecia tentar ser agradável. Mas eu não gostei, queria meu espaço de novo. Então, percebi que tinha boca, e a abri. A substância gasosa entrou em algum lugar dentro de mim, e foi um susto. Então um som alto e feio começou a sair de dentro de meus pulmões. O som rasgava minha recém-descoberta garganta. Eu estava gritando de medo e desespero. Queria meu cantinho apertado de novo. Mas isso parecia não ser mais possível.

Depois de me virarem para tudo que é lado, colocaram-me ao lado de uma coisa. Ela fez um barulho. “Vitor”. Meus olhos se arregalaram, apesar de eu não saber, ainda, distinguir as visões que eu estava tendo, aquilo me deu uma acalmada. “Pequeno Vitor” continuou a coisa. Era aquela coisa barulhenta que me tranquilizava. Então, algo foi colocado em minha boca, e eu quis sugar. Dali saiu um líquido que me acalmou totalmente. A coisa me envolveu, e eu me senti completo. Ela fazia barulhos. Parecia ser felicidade. Mas agora eu estava feliz. Nós éramos um só. Tudo ficaria bem. Tic-tac. Esse barulho infernal de novo não. Logo agora que tudo tinha melhorado para mim?

Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Ele parecia mais alto, e mais medonho. Não aguentei, reclamei do barulho, e novamente saiu aquele som alto de dentro de mim de novo, rasgando minha garganta. Até que chegou uma segunda voz, que eu já tinha ouvido algumas vezes: “Tire o seu relógio, querida, pode estar incomodando ele.” Então o “Tic-tac” parou. Finalmente, depois de tanto tempo. Parou! Gostei da segunda voz. Acho que iríamos nos dar bem. Ela parecia gostar de me proteger. Tudo ficaria bem. Essas duas vozes era tudo que eu precisava por enquanto.

Texto colaborativo de Felipe Boldo