ELE

– Agora você vai começar a falar sobre meus textos. Adoro essa parte.

ELA

– Eu só não entendo. Não estou criticando. É diferente. Você não aceita crítica nenhuma. Eu falo alguma coisa e pronto, acaba o mundo.

ELE

–  Você não sabe criticar. Só falar mal mesmo.

ELA

– Não é. Eu só acho que você deveria parar de se esconder e fazer alguma coisa a respeito. Sei lá, você fica enfurnado naquele quarto, dia e noite, pra, no fim, ninguém saber que você escreveu todas aquelas piadas. Dá certo, as pessoas riem, você poderia ficar rico, mas vai acabar morrendo anônimo e os outros ainda ganham o crédito com o que você escreve. Deus sabe quando a gente vai morrer.

ELE

– Eles não ganham o crédito. Eles me pagam e pronto. O texto é deles. E eu não quero sucesso.

ELA

– Se você não quer sucesso, porque fica tão feliz quando aqueles idiotas pedantes descobrem que você escreve todas aquelas cenas e batem no seu apartartamento com uma garrafa de vinho pra vocês ficarem bebâdos e falar sobre Brecht como se fosse algo importante. É o seu ego falando ali. Você não é simpático com ninguém, a não ser que elogiem seu trabalho. No fundo, toda essa porra é carência e pronto.

ELE

-Pensei que queria falar sobre algo agradável no nosso aniversário. Mas isso não importa. Eu já tenho o suficiente pra comprar essa sopa francesa horrível, exemplo. Pra estar aqui com você. Eu nem estou chorando por gastar meu dinheiro com isso. O sucesso é uma farsa. É só um conceito maluco que eles inventaram para manter as pessoas girando a roda. Como os hamsters. Quer dizer, você não pensa realmente que somos melhores que os hamsters, né? Eles também acham que aquela roda vai parar e eles vão ganhar um grande prêmio no final. Exatamente, como nós.

ELA

– Eu não sou a porra de um hamsters. Não estamos falando disso. Estamos falando da sua carreira. Não começa com suas metáforas e revoltas de adolescentes contra o sistema. Você não acha que pasou da idade?

ELE

– Qual carreira? A que você não entende? E eu pensei que eu fosse jovem. Agora sou velho?

ELA

– Tudo isso no nosso aniversário é por causa dessa maldita sopa? Ou é o restaurante? Que tortura absurda.

ELE

– […]

ELA

– E outra coisa, você pode achar que eu não sei nada sobre essas merdas dessas suas piadas só porque você dorme com um dicionário na bunda e fica usando essas palavras que ninguém entende. Mas eu sei que eu estou lá. Já vi frases inteiras que eu falei. Já li nossas discussões, nossas transas e nossas bebedeiras. Eu pensei que vocês fossem mais criativos, quer dizer, você é escritor, né? Por que não inventa essas merdas? Por que eu sempre tenho que estar no meio das suas histórias e piadas? As pessoas não são do jeito que você quer que elas sejam. Quando eu for embora o que vai sobrar da sua literatura?

ELE

– Eu só observo e escrevo. Mas isso não importa, ninguém se importa com as merdas que eu escrevo, não é? Então por que a preocupação? Ninguém vai ler, só meia dúzia de hipsters que estão mais preocupados em gastar o dinheiro do pai em algum bar mofado da Augusta depois do teatro. Relaxa.

ELA

– Você não consegue ficar um minuto sem julgar alguém. É impressionante. Só consegue ficar lá no fundo, bem fundo mesmo, de seu buraco e apontando esse dedo podre pra todo mundo. Não sei quem é hipster, a sopa tem nome francês. Meu deus.

[ se concentram na sopa]

ELE

– É verdade. Eu gosto de ficar dentro do meu apartamento me sentindo melhor que os outros só porque já li a obra inteira de Proust. É isso. Você tem razão. E aidna faço análise. Esfriou a sopa. Agora sim ela está uma merda de verdade. No fim, a sopa sempre esfria.

ELA

[respira fundo]

– Acho que chegou a hora.

ELE

– Do quê?

ELA

– Acho que você tem razão. É uma falácia mesmo. Eu só vou terminar essa sopa e ir pra casa. Esquece tudo. Achei que ia dar pra continuar. Mas somos hamsters na roda e em busca de sexo fácil, aguentamos as merdas umd o outro.

ELE

– Não precisa disso também. Não agora.

ELA

– É só que é uma falácia, você tem razão. Só me faz um favor? Me tira das suas peças.

ELE

– No nosso aniversário?

ELA

– Essas são as melhores datas.

 

[deixam a sopa pela metade. dividem a conta. caminham até a calçada em silêncio.  despedem-se na saída. desejam sorte um ao outro e vão para casa. não derramam uma lágrima]

[…]

FIM

(imagem: Existencialismo VIrtual)

PARTE 1: https://grupodoscinco.com/2017/03/22/aniversario-parte-1/