eu estava sozinho no canto do bar quando esse cara começou o seu show. o sol estava em plena atividade e não se podia ficar parado sem se derramar em suor. ele era o mais novo rico do bairro e estava berrando e cuspindo na cara das pessoas que passavam pela calçada. fora de controle. os garçons foram duas vezes até ele. pediram pra que ele parasse. mas o rico de merda jogava um maço de dinheiro na fuça deles. as notas chuviam na calçada. os garçons ficavam de quatro e as pegavam, uma por uma, como pombos famintos, e o deixavam em paz.

quando o menino de rua se aproximou o filha de puta soltou uma gargalhada horrível. o som de sua risada explodiu para dentro do bar e abafou tudo. cada conversa foi silenciada. ele esperneava como um maníaco com a cena do menino recolhendo as latinhas. uma a uma. o menino parecia um cadáver, sujo e esquelético, tinha os olhos mais fundos que já vi. o maluco começou, então, a chutar as latas que o menino colocava em sua sacola.

todas para o meio da avenida. o menino lhe lançou um olhar mortal, seus olhos finalmente apareceram, e socou duas vezes o filha da puta. foi o suficiente. o primeiro foi na boca do estômago que deixou o homem em formato de U, o segundo foi direto no queixo. ele caiu. seu dente voou e aterrissou na avenida.

o bar vibrou. todos levantaram e aplaudiram o nocaute como se estivessem em uma luta de boxe. eu continuava ali no canto do bar drenando minha segunda garrafa. os bêbados vibraram e derramaram metade de seus copos no chão. eles se abraçavam e o chão ficou melado e escorregadio. minha cerveja estava quente e o copo era de plástico.

o menino continuou gélido. alheio a tudo. meteu-se entre os carros e foi pegando as latinhas. uma a uma. quase foi atropelado por um motorista que estava falando no celular e o xingou de verme. ele abaixou-se e recolheu mais uma. gélido. por vezes, a miséria vence. o rico continuou lá. caído.

seu corpo desfalecendo sobre o sol do meio dia. a calçada ganhou duas novas manchas de sangue. seu queixo estava dois centímetros para a direita e o bar continuou seu ritmo normal. as pessoas pediram suas bebidas novamente para esquecer de suas vidas e conversavam sobre suas famílias e eu fiquei olhando aquele merda prostado na calçada. aos poucos o bar foi fechando e as pessoas foram cambaleando para suas casas. todos bêbados. ao sair, todos deixavam sua cuspida no riquinho. sua pele albina foi ganhando hidratação grátis e isso era o ponto alto do seu dia.

fiquei sozinho no bar. já estava na sétima garrafa e encostei na parede para descansar. o garçom me cutucou três vezes e pediu ajuda para levantar o riquinho da calçada. pra levar ele pra dentro. provavelmente, eu estava mais fodido que ele, mas ajudei mesmo assim. o garçom era dos bons e a gente tinha uma boa amizade. aproximei-me com alguma dificuldade daquele semi-cadáver carnudo e percebi que fedia muito. era enxofre que saía de seus poros.

o garçom me disse que estava ali no bar há cinco dias. tinha uma mansão no bairro e dois carros do ano e vinte relógios de marca e duas piscinas no quintal e uma banheira na suíte e havia feito faculdade na Itália e tinha uma amante de vinte anos, mas a mulher tinha lhe abandonado. ela fodia com homem que limpava a piscina da casa deles. de nada adiantou seus vinte relógios e ter uma piscina me pareceu uma má ideia.

o carregamos até a mesa mais próxima e eu vi sua carteira quase caindo de sua calça. Peguei. tinha trezentos reais. o suficiente para largar meu emprego de catador de latinha por duas semanas e comprar um vinho barato. mas meu pai fodeu minha vida na infância e eu aprendi com ele que roubar era errado. deixei a carteira na mesa, o homem estava com a cabeça na parede e sussurrava em transe, chamava pela mulher. o garaçom gritou que iria chamar sua mãe para buscar a carcaça. coloquei a carteira na mesa, dei mais dois socos na cara do filho da puta e caminhei no sol até o quarto da pensão ao lado do bar. às vezes, a riqueza vence.

(imagem: Arte lista)