– Você nunca leu os russos!

Ela chegou berrando. Deu um chute na porta, passou pela sala e ficou parada na entrada da cozinha.

– Você mentiu pra mim. Eu sei que você nunca leu os russos. Que tipo de escritor nunca leu Tostói? Fala, caralho.

Eu a olhei apavorado. Ela trazia um ódio dos grandes no olhar. Não falei nada. Deixei que seu ódio fluísse para o ar. Eu tremia. Ela levantou sua blusa de renda e puxou a arma da cintura.

Tremi.

A galinha estava no fogo. O vapor que emergia da panela enferrujada deixava a cozinha insuportável. Suava. Um suor denso que descia pelas minhas costas e minhas têmporas.

Não lhe perguntei nada. Sabia do que ela estava falando. Ela perguntou se eu já tinha lido os russos. Foi em uma noite em seu carro depois de uma leitura na universidade. Ela dirigia. Todo mundo me lambeu naquela noite. Um monte de universitários de merda que não sabiam nada de poesia. Eu era o poeta da moda. O marginal do momento. Dei uma longa risada. Olhei-a fixamente durante uns trinta segundos. Pra ganhar tempo, lhe devolvi a pergunta. Ela respondeu que não. Ainda não, complementou. Eu disse que todo escritor precisa passar pelos russos antes de começar a carreira. Ela sabia que eu tava mentindo. Sabia que eu não lia nada decente há meses. Sabia que eu não ia ficar um mês lendo as merdas que um aristocrata russo escrevia. Foda-se a Rússia. Mas a gente tinha acabado de se conhecer. Deixou passar.

Tremi.

Ela continuava firme e apontava aquela arma pra minha cara. Não piscava nem por um segundo. Os olhos cor de sangue. O notebook estava aberto e a cocaína espalhada pela mesa da cozinha. Tudo era sujo e todos os cheiros do mundo se encontravam ali. Era denso e difícil de tragar. As contas atrasadas estavam coladas na porta da geladeira. Ela tava pregada. Não dormia há dias. Foi embora logo depois que o Luiz morreu. Deixou a casa imunda com as minhas merdas. Não podia culpá-la. Ela sempre disse que não entendia meus poemas. Dizia que meus diálogos eram rasos e que tinha feito a melhor amiga do mundo na semana passada. Ela me deixou por uma artista plástica que dava aula na faculdade.

– Ela fode melhor que eu?

Comecei a chorar.

– Ela te deu filhos?

Ela não chorou.

– Cadê ela?

– Você sempre foi péssimo de gramática e nem sabe falar inglês. Escritor de merda.

Fui em direção ao fogo. Lágrimas e suor se encontravam na minha boca e formaram o suco mais gostoso que já tinha engolido. Deitei de costas para o fogão. Minhas calças estavam rasgadas. Heranças das festas nas repúblicas pela cidade. A panela fervilhava. Sempre amei seus dedos e o jeito em que eles me tocavam na face e como ela me olhava enquanto eu fingia que estava trabalhando no meu novo romance durante as tardes de sol. Puxei a panela e a água se despejou em mim. Não sobrou nada. A galinha caiu em meu colo. Já não tinha mais superfície. Só osso.

– Você sempre me disse que eu não me abria pra você. Olha agora.

Puxei a fala do último suspiro.

Deu tempo de ouvir ela se aproximar e cuspir bem na minha boca. Engoli.

Ela colocou meu notebook nos braços e saiu pela porta.

Tremi.

Eu e a galinha.

[…]

Desenho: Quando Meu Pai Se Encontrou Com o ET Fazia Um Dia Quente – Lourenço Mutarelli