Quarta-feira de cinzas. Primeiro a missa. O pó na testa. Dia sem carne. Eu, na época uma criança de quase dez anos, ainda não compreendia a maioria dos costumes dos antigos para esse período religioso.

É interessante observar como as coisas acontecem no interior. Os detalhes são valorizados. As tradições pulsam na veia das pessoas como algo que vai além da religião. Os costumes são como forma de manterem vivas as memórias do antecedentes.

Na praça da igreja, o primeiro sinal. De uma árvore, que até então se manteve apenas com folhagens simples, aos poucos brotavam flores de tom roxo discreto. A quaresmeira, árvore que leva o nome e a cor símbolos do tempo quaresmal do catolicismo, atribuía ao ar um aspecto melancólico e nublado, que se estendia pelos próximos quarenta dias, até o domingo de páscoa.

Nas missas, a alegre sineta do coroinha era trocada pela matraca. Instrumento de madeira com um pedaço de ferro no meio. É utilizada desde o século VII, quando a igreja proibiu que fossem tocados os sinos e “músicas profanas” durante a quaresma. E quantas lembranças um simples som de uma matraca me trazem. Por vezes, parece me levar de volta ao passado, ainda recente, em recordação da minha infância.

Nas procissões, padre Nicolau, um holandês de quase dois metros de altura, voz grave e cabelos claros, caminhava entre o corredor de fiéis tocando a matraca enquanto o vento balançava sua batina proporcionando-lhe um ar de santidade.

As imagens da igreja eram então cobertas com um pano roxo. Nos corredores e altar, os grandes vasos com plantas e flores vivas substituídos por um vazio. Em casa o mesmo sentimento. Vó Dú nos orientava a não comermos carne. Som do rádio ou TV não muito altos. Não ouça qualquer música. Palavrões não devem ser ditos. É tempo de reflexão.

Hoje, cinco anos após a morte da vó e quatro em que saí de Minas, não vejo quaresmeiras na cidade grande. Pelas bandas do interior mineiro talvez ainda existam e estejam florescendo na praça da matriz. Florescem aqui apenas as memórias de uma infância feliz e a saudade do simples, escondido nos pequenos detalhes da vida.

Crédito da imagem: Padre Lauro Palú, C.M. /
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