Era carnaval. Aquele homem estava ajoelhado com as mãos esticadas. Bem ao lado das catracas do metrô. A multidão o engolia. Ele aparecia em frames lentos. Como que em câmera lenta. Em sua frente, os pedestres passavam sorridentes. Pernas e mais pernas o apagavam. Gargalhadas abafavam sua voz. Ele cansou. Levantou. Ao fazê-lo, denunciou uma calça rasgada da coxa até os tornozelos. Saiu pulando, o mendigo. Era carnaval. Misturou-se. Os joelhos eram calejados, moviam-se com dureza. Muitos carnavais. Sua camiseta era engordurada. Sua barriga, inexistente. A barba, volumosa. As mãos ossudas e os pelos do antebraço estavam eriçados. Era carnaval. Nada fazia sentido na cidade, então ele saiu pulando junto com a multidão.

As pessoas estavam fantasiadas de personagens de filmes norte americanos e palhaços. As pessoas rolavam pelas ruas desconexas. Acotovelavam-se nas avenidas. Fodiam nas vielas. Vomitavam na calçada. Embebedavam-se com vinho barato e uísque em copos de plástico. Todo mundo se saía bem. Eu odiava carnaval. Mas havia revolta ali.

Era como rasgar as amarras. Arrebentar nos dentes as correntes que os prendiam às obrigações sociais. Não há mais nada o que se fazer no carnaval. É preciso gritar. Socar o ar. Esparramar-se no asfalto. O mendigo continuaria ajoelhado na catraca do metrô, amanhã. Naquele momento, era carnaval.

Talvez estivesse pedindo uma autorização para sair por aí também. Estava no meio da multidão. Imóvel. Eu queria me esfregar. Se pudesse, iria me fantasiar de cidadão e foderia com alguém apoiado em um poste qualquer da praça da Sé. Eu sempre amei aquele lugar.

Era carnaval. As pessoas se empanturram nesta data. Vão à calçada de seus empregos, ficam de cócoras e jorram excrementos de seu âmago, com toda a fúria. Limpam suas expectativas no transe peristálgico em uma só catarse. Xingam seus patrões que estão nesse momento em seus apartamentos, sentados, entupindo suas artérias em frente à tv. Infelizes. Só o povo sabe o que é carnaval.

Era carnaval e as pessoas estavam na rua e o mendigo podia ser cidadão e a cidade estava feliz. Sem amarras.

Eu caminhava imóvel naquela multidão e via a vida ali. Se tudo tivesse dado certo, todo dia seria carnaval. Se o plano de deus tivesse dado certo. Transas, cervejas e vômitos se entrelaçando nas calçadas das metrópoles. Misturando-se para moldar gerações.

Nada precisa fazer sentido no carnaval. É tudo desconexo. As pessoas se fantasiam de mendigo nesta data. Quando o sol atingir a plenitude, na quarta-feira de cinzas, tudo voltará ao normal. O mendigo se ajoelha e as pessoas colocam suas roupas íntimas de novo. É quinta feira. Uma gravata enforca o meu pescoço cansado e é hora de trabalhar. Ano que vem tem carnaval e é preciso estar vivo nestas datas.

(foto: O carnaval de Arlequim, João Miró