Voltou. Todos os dias o menino ansiava pela chegada paterna. Às oito, corria até o armário, pegava os chinelos e esperava. Ficava com a orelha esquerda colada na porta. Ansioso. Desistia. Aguentava apenas vinte minutos na posição. Seus pés doíam, a orelha esquentava, seu rosto formigava. Desistia.

– Tá doido menino? Saí logo daí, Antônio. Dizia sua mãe quando flagrava seu ritual esquisito. Nunca respondia. Apenas se frustrava pela espera que lhe parecia infinita.

Tinha poucas lembranças de seu pai sóbrio. Quando chegava da escola, via, em cima da mesa lateral da sala, um porta retrato com a foto dele. Estava com seu irmão nos braços. Trazia no corpanzil um macacão azul, engordurado, que marcava a protuberância da barriga. Os cabelos, que já rareavam na cabeça, denunciavam a meia idade. No rosto, repleto de marcas e cicatrizes, as bochechas ameaçavam invadir a região nasal. O menino olhava a foto e esforçava-se. Puxava na memória aquela figura. Feliz. Sorrindo. Sem estar no trabalho ou no bar. Buscava seu pai sem o uniforme. Sem o macacão. Nada.

Havia apenas quatro palavras que traziam seu pai para sua realidade: Vá colocar os chinelos!  Oração imperativa. Uma ordem. Seu pai, aquele homem que lhe parecia enorme, sempre que o encontrava, o olhava de cima abaixo e perguntava-lhe sobre os chinelos. Como um hábito senil, o menino andava descalço. O dia inteiro. Era como se, descalço, estivesse realmente nos lugares. Conectado. E seu pai, por outro lado, tinha certa obsessão por chinelos. Por pés calçados. Por isso, o menino sempre o esperava com os chinelos nas mãos, mas nunca os calçava. Queria mostrar a seu pai que, desta vez, havia se lembrado. Preparava as falas. Toda a cena passava pela sua cabeça: Seu pai iria perguntar sobre os chinelos. Ele, então, iria lhe mostrar. Com brilho nos olhos, seu genitor, gigante, iria lhe parabenizar, pela sua esperteza. Pela sabedoria dos chinelos. Seria o ápice.

Um dia, estava com a orelha esquerda colada na porta. De repente, escutou um estrondo. Era o portão de sua casa. Mal podia acreditar. Então, abriu a porta e desceu as escadas. Parou no primeiro degrau. Meio incrédulo. Olhou seu pai. Meio cambaleando. Para um lado, pro outro. Com o macacão aberto até o penúltimo botão. Balbuciava frases desconexas. Tateava o ar. Fazia movimentos verticais com o braço. Sem parar. Apoiou-se no estreito corredor contíguo a sala. Tropeçou. Levantou. Deitou-se no sofá e, com certa dificuldade, pegou o controle, zapeou os canais. Notícias. Reprise de futebol. Mulheres de biquíni em cima do carro. Parou.

Quase na metade da escada, o menino ouviu passos. Era sua mãe. Furiosa. Com cara de sono. Meio desnorteada, o mandou voltar para seu quarto. Sua mãe era uma mulher de enorme. Com cabelos negros, encolhidos, que lhe escondiam o rosto. Acima do peso, exagerava na existência. Demasiada vida. Amava demais. Sofria demais. Comia demais.

Antônio obedeceu à ordem dela. Subiu as escadas em direção ao seu quarto. Mas parou. Depois de alguns segundos, voltou. Agora, tentando se esquivar de sua mãe, tinha a visão comprometida. Espreitava. Era uma batalha entre a ebriedade e o exagero. Sua mãe batia o pé, gesticulava sem parar. Empurrou o pai direto no sofá. Ele caiu de bruços. Mostrava-lhe o celular. Jogou o aparelho com tanta força na parede que ele espatifou no ar. Seu pai balbuciava as mesmas frases de quando entrou na casa. Sem sentido.

Era uma batalha esquisita. O menino foi se aproximando da cena. Já podia vê-la completamente. Absorto. Dividia sua atenção entre a televisão, com as mulheres de peitos a mostra e o show de seus pais. Avançou. Seu pai tentava agarrar os braços de sua mãe para evitar as bofetadas. O álcool não permitia.

– Filha da puta! Sai da minha casa, já! Esbravejava sua mãe, com o rosto da cor do nariz de um palhaço, os olhos esbugalhados e um líquido denso que lhe caia pelo rosto.

– Tá bom, eu vou. Disse seu pai com certa dificuldade.

Cambaleou. Tentava se dissipar do ambiente. Ia em direção às escadas. Parecia desesperado com aquela mulher que gritava sem parar. Rente ao seu rosto. Caiu. Cara no chão. Cego pelo álcool, olhou para o menino, mas não o viu. Sua mãe, cega pela raiva, continuava gritando. Gritos. Gritos. Música. Mulheres nuas.

Em uma só explosão, ela o levantou e o empurrou. Ele caiu de novo, dessa vez, rodopiou e caiu de barriga para cima, fora do tapete, no piso gelado. Ficou alguns segundo olhando para o teto. Como se tivesse levado um choque, levantou. Estava a poucos metros da escada. Tentou levantar. Cambaleou. De longe, sua mãe gritava. Subiu. De quatro. Degrau por degrau. Nesse momento, o menino viu os pés de seu pai. Descalços.  Pelados. Naquele piso frio, como ele mesmo repetia sistematicamente. Desesperado, olhou pra sala, lá estavam eles, amontoados. Correu e pegou. Sua mãe mal percebeu sua presença. Voltou para acompanhar a escalada do pai.

Aquele homem gigante, parecia um felino indefeso. Demorava um minuto em cada degrau. A cada passo, praguejava algo. Sem sentido. Quando finalmente acabou a escada, seu pai tornou-se humano. Com os pés descalços no chão, entrou em seu quarto. Abriu o guarda roupa. Parou na segunda gaveta. Pegou dois pares de meia. Fechou a porta. Abriu a do lado. Começou a fazer uma montanha de calçados. Sapatos. Tênis. Chinelos. Metade caiu no chão. Não fechou a porta. Desceu as escadas e, tropeçando em cada degrau, deixou cair a outra metade. Ficou apenas com um par na mão. Seus chinelos preferidos. Como por instinto, o menino ia atrás. Pegava todos os pares que seu pai derrubava.

– Pai, você está descalço. Sussurrou o menino, já na garagem.

Seu pai não entendeu. Apenas o olhou por um minuto. Fixo. Sua mãe ao fundo. Gritos. Vizinhos na calçada. O menino começou a jogar para dentro do carro os calçados que conseguiu caçar.

– É melhor você ir. A mamãe vai te matar com esses pés descalços.

Seu pai o olhou de novo. Entrou no carro. Não conseguiu achar o buraco da chave. Sua mãe se aproximou. Seus passos quase afundavam o chão de tão fundos. O menino o ajudou. Colocou a chave. Abriu o portão. Jogou um chinelo em seu colo, faltava um. Gritou:

– Vai logo pai. É serio.

Sua mãe vinha com algo na mão. Jogou em direção ao carro. Bem no vidro dianteiro. Estilhaçou. Tamanha era a sua raiva. O objeto ficou cravado. Seu pai ligou o carro. Era o outro par do chinelo. Quatro pessoas invadiram a garagem e afastaram aquela mulher enorme, furiosa. A jogaram contra a parede.

– Filha da puta! Some já daqui.

Ele era invisível. Ninguém o notava. Viu um par de chinelos velhos jogados no chão. Pegou. Correu até seu quarto. Olhou pela janela. Seu pai deu partida. Antes de sair para a rua, ainda raspou a lateral do carro no portão. Fechou a janela. Colocou os sapatos. Enormes. Colou a orelha esquerda na porta. Dessa vez, calçado.

Nunca mais lhe perguntaram pelos chinelos. Eles estavam sempre em seus pés.

(foto: Blog vivikbrera)