Centenas de pessoas passam diariamente na famosa e movimentada avenida Madre Leônia Milito. Porém, a grande maioria desconhece a história da mulher por trás desse nome e a sua importância no cenário cultural e religioso de Londrina.
(foto de capa: Nelson Boulangerie)

“Corajosa e missionária, sem medo de arriscar”, afirma Ir. Aparecida ao descrever uma das mulheres já consagrada santa pelos católicos. Conhecida mundialmente, Madre Leônia Milito, que adotou Londrina como sua casa, é parte viva na memória daqueles que com ela conviveram e que hoje, por intercessão dela, afirmam receber graças e milagres. Porém, ainda são muitos os londrinenses que passam pela Avenida Madre Leônia Milito sem conhecer a história por trás desse nome.

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Madre Leônia Milito, na Itália. Arquivo de propriedade da congregação Claretiana.

Há 36 anos falecia a freira que não somente deixou um legado às suas missionárias ou fiéis da religião católica, mas foi parte importante e de destaque na história de Londrina. Vítima fatal de um grave acidente de trânsito, Madre Leônia, além de ser exemplo de vida, tem sido também “ponte” de união entre igreja e a prefeitura na conscientização e realização de ações em prol de um trânsito melhor e mais seguro.

Até a sua morte, uma vida de bondade, doação aos mais necessitados e trabalho constante na construção de uma Londrina e um mundo melhor. E hoje, 35 anos depois do seu falecimento, modelo de santidade para os católicos e mistério entre médicos que tiveram seus pacientes curados de problemas considerados irreversíveis.

Será essa mulher a próxima Santa brasileira canonizada pela Igreja Católica? Uma Santa Londrinense? Qual a história por trás desse nome?

INFÂNCIA E JUVENTUDE

Itália, 23 de junho de 1913. Nascia na cidade de Sapri, sul da província de Salerno, Madre Leônia Milito.

“Recebi o nome de Maria no meu batismo. Estava tranquila e feliz entre os meus irmãos, que me devotavam muito afeto”, escreveu a freira em seu diário espiritual.

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Arquivo de propriedade da Congregação Claretiana.

Filha mulher única e irmã de quatro homens, Madre Leônia cresceu em uma família cristã, de pais e irmãos religiosos, mas que não aceitavam a ideia da jovem de seguir a vocação religiosa e se tornar freira. Com 16 anos ingressou no movimento religioso “Ação Católica”, e é pela realização do que acreditava ser a sua vocação que, 6 anos mais tarde, a jovem Leônia fugia de casa.

“De repente, pareceu-me sentir alguma coisa de estranho no meu no meu íntimo. Senti que devia dedicar a minha vida a serviço de todos os irmãos e não de uma só família”. [Escritos de Madre Leônia Milito]  

O início da sua vida religiosa se deu com a ingressão na congregação “Instituto das Irmãs Pobres de Santo Antônio”, ainda na Itália, exatamente no dia 18 de junho de 1935, aos 22 anos de idade.

VINDA AO BRASIL

Apesar do seu amor pela congregação italiana a qual pertencia, Madre Leônia sentia ainda dentro de si o desejo por algo mais. O ambiente em que vivia seria apenas a formação inicial e impulso para que a jovem buscasse mais e também fizesse mais pelo mundo.

Já como formadora de noviças, Madre Leônia viaja para Roma com um grupo de formandas, e no ano de 1950 encontram com o Papa Pio XII, o que foi motivo de empolgação para o espírito missionário que a freira carregava dentro de si. Voltando da viagem e do encontro com o líder religioso da época, a Madre então propõe aos seus superiores que ela e um outro grupo de irmãs se colocassem à disposição para partir em missão.

Com a necessidade de missionárias no Brasil e a disposição da Irmãs, partem em viagem, inicialmente, 4 freiras para o território brasileiro. Em seguida, a própria Madre Leônia, trazendo consigo outras dezenas de jovens, iniciam seus trabalhos no interior paulista. A função inicial da Madre Leônia era apenas de estruturar o grupo e em seguida retornar para a Itália.

Porém, uma mudança do Governo Italiano e da Congregação a qual a Madre pertencia, por acharem o Brasil um país perigoso e violento para a convivência das freiras, ordena o imediato retorno das irmãs para a Itália. Com a chegada da notícia e comoção dos envolvidos com as freiras no Brasil, que necessitavam das missionárias, um pedido de ajuda na solução do problema e impedimento do retorno das irmãs foi feito a Dom Geraldo Fernandes, arcebispo, na época, recente na cidade de Londrina.

Considerada “rebelde” pelos bispos e superiores italianos por insistir na permanência no Brasil, Madre Leônia então é expulsa da Congregação e acolhida por Dom Geraldo Fernandes. A partir de então, crescia a amizade entre eles, o que pouco tempo depois resultou na criação de uma nova família religiosa, tendo os dois como fundadores e a contribuição das demais irmãs que se mantiveram fiéis aos seus ideais missionários, e seguiram Leônia.

CASA EM LONDRINA

Londrina, 19 de março de 1958. Era criada a nova família religiosa, tendo como fundadores Dom Geraldo Fernandes e Madre Leônia Milito. A congregação, denominada Missionárias de Santo Antônio Maria Claret, fazia sede na cidade ainda em crescimento. A finalidade primordial era o Anúncio do Evangelho e o Serviço da Caridade. Serviços cada vez mais presentes na comunidade londrinense e, aos poucos, espalhados por outros países.

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Ainda hoje a casa existe, não somente a primeira em que viveu Madre Leônia Milito e as primeiras freiras da congregação, mas também a que mais tarde ela construiu e que hoje é ponto de referência religioso, histórico e turístico de Londrina.

Localizada na Avenida que recebe seu nome, a casa das irmãs e o Santuário Eucarístico é carregado de memórias e espiritualidade para religiosos de todo mundo que rezam pela intercessão da freira.

CONVIVÊNCIA

Ir. Aparecida de Lourdes Arado, vigária geral das Missionárias Claretianas em Londrina, conviveu com Madre Leônia desde o início da fundação da congregação até a sua morte, e hoje se emociona ao falar da “mãe”, amiga e formadora.

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“Morei com a Madre Leônia durante muitos anos, trabalhei muito com ela e tive essa oportunidade e esse privilégio de conviver com ela, compartilhar a vida e a missão com essa mulher”.

Outras freiras que tiveram oportunidade de conviver com a Madre compartilham da mesma experiência. Falam de ensinamentos, encorajamento e de uma mulher preocupada com o próximo, os mais necessitados e não apenas a comunidade local, mas o mundo inteiro. Sua preocupação em formar as irmãs e expandir a missão pelo mundo ainda são frutos colhidos em diversos continentes do planeta.

MORRE MADRE LEÔNIA MILITO

Londrina, 22 de julho de 1980. Os jornais noticiam: “Morre Madre Leônia Milito”.

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Levadas ao hospital por um policial que registrou o acidente, a notícia de que um carro com irmãs de caridade havia acidentado se espalhou. Pouco a pouco as pessoas eram avisadas e corriam para o hospital em busca de informações.Tarde de terça feira, no trecho da saída de Cambé, região metropolitana de Londrina, uma via de pouca visibilidade e uma carreta em alta velocidade em uma curva bate com o carro que levava Madre Leônia e outras freiras para Maringá.

“Para todas nós foi algo que ninguém acreditava. Tínhamos terminado de almoçar quando o telefone tocou e me avisaram, mas ninguém falou o que realmente havia acontecido, apenas que o acidente tinha sido grave. Quando chegamos no hospital, entrei e vi uma das irmãs que estavam no carro. Caminhei até ela, a vi de habito rasgado; ensanguentada e transtornada ela me disse: “Ah filha, vamos ser fortes, a Madre se foi! ”. Fui então ao local em que ela estava, e ali, vi seu corpo. Aquilo foi…”. Conta, emocionada, Ir. Aparecida.

Bispos, religiosos, políticos e leigos de Londrina e de outros lugares do Brasil compareceram para o velório e enterro de Madre Leônia Milito, morta aos sessenta e sete anos.

SERVIÇO SOCIAL E LEGADO

Madre Leônia foi importante figura no cenário Londrinense não apenas pela sua trajetória de vida, mas principalmente pelo legado deixado por ela. A ajuda aos mais necessitados, a busca e acolhida das novas vocações religiosas e o partir em missão são marcas deixadas por ela em Londrina.

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Hoje as irmãs realizam constantemente serviços comunitários e auxiliam diversos setores como saúde e educação.

O Asilo São Vicente de Paulo de Londrina, por exemplo, que contou com a ajuda de Madre Leônia para sua fundação em 1960, presta serviços em tempo integral a pessoas idosas de Londrina e região, que se encontravam em situações de abandono e vulnerabilidade social. E são as irmãs Claretianas que ainda hoje, 35 anos após a morte de sua fundadora, mantém a parceria com a instituição e são as responsáveis pela administração interna da obra.

A Congregação é responsável ainda pela Casa de Apoio Madre Leônia, que acolhe, pessoas com câncer vindas de outras cidades da região para tratamento no Hospital do Câncer de Londrina. Na casa são atendidas pessoas que não possuem condições financeiras para se hospedarem na cidade no período de exames ou tratamento da doença. Os acolhidos recebem, diariamente, refeições como café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e lanche da noite, além de garantirem um ambiente de higiene e conforto para essas famílias.

A obra é mantida com verba recebida pela Prefeitura Municipal de Londrina, de outras três prefeituras da região e da Paróquia Nossa Senhora das Graças. Para ajuda financeira a casa conta ainda com um bazar de usados e doações de toda a comunidade londrinense.

Santa ou não, Madre Leônia deixa como legado o exemplo de vida a ser seguido não apenas por católicos, mas por pessoas que lutam por um mundo melhor. Pessoas que ainda possuem acesas dentro de si a chama da esperança de um “amanhã” em que mãos sejam estendidas aos mais pobres. Em que o preconceito tenha seu fim e a igualdade social e racial sejam preocupação mundial. Em que a religião, mesmo tendo a sua importância na vida do ser humano, não seja motivo de guerra e opressão, exclusão e distinção. Um mundo com menos ódio, em que as pessoas se amem e respeitem mais.

IMAGENS DO ESPAÇO MADRE LEÔNIA MILITO

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