Tinha esse cara que ficava na esquina de casa. Toda vez que eu passava, ele me dizia o quanto a vida era dura. Todos os dias. Eu só conseguia pensar que merda ele ficava fazendo ali, na esquina, sussurrando no ouvido de todo mundo que passava que a vida era dura.

Já ia dar mais de um mês que eu estava desempregado. Passei por ele, não tinha vinte centavos na conta corrente. Ele me disse que a vida era dura. Dessa vez eu parei. Olhei nos olhos dele. Queria pegar a sua alma. Entender qual é a sua. Vinte segundos já haviam se passado e eu continuava ali. Bem nos olhos dele.

Ele repetiu. A vida é dura. Eu não me movia. Fiquei imóvel. Ele começou a ficar incomodado. Olhou para os lados meio que tentando entender.

– O que você está fazendo mano? Por que continua ai parado?”

– Quero sacar qual é a sua. Passo aqui e você me fala que a vida é dura. Pior que é.”

 – Mas não é pra você se sentir especial, eu falo isso pra todo mundo que passa. Todo mundo que passa por essa merda de calçada. Vaza, caralho.

 – Eu estou desempregado. Eu pareço desempregado pra você?

 – Foda-se, irmão. Não estou nem ai pra porra do seu emprego. Você acha que é o único que tem problemas?

 – Minha mãe sempre me disse que o importante é ter postura. Não importa o que você é. Tem que ter postura. Eu pareço desempregado pra você?

 – Você tá bêbado, caralho? Eu pareço alguém que possa dar conselho pra alguém? Vaza.

 – Eu acho que sim. Você pode. A vida é dura. A vida é dura. É só isso que você repete. Pra todo mundo. E, outra, você não tem postura de mendigo. Parece mais um ator. Todo cheio de palavras na boca.

 – E que merda você tem a ver comigo? Eu sempre digo para as pessoas que a vida é dura. Nunca digo que eu sou um mendigo.

Me aproximei mais um pouco. Aos poucos. Cheguei bem próximo de seu rosto. Ele recuou até bater os tornozelos no muro da escola. Uma faca caiu de sua cintura.

 – Eu não acho mesmo que você seja um mendigo. Sabia que eu estou desempregado?

A vida é dura.

 – O importante é ter postura. Quer dizer, não importa se você é bom no que faz. Foda-se. Coloca um terno italiano, uma gravata amarela e um sapato de couro. Você é o especulador master de um mercado qualquer. O Eike usava peruca. Era sua força. Ele me pareceu tão doente com aquela camiseta branca no presídio. Coloque, então, uma camisa florida e uma bermuda marrom que vá até o joelho. Tenha uma barba falha e, pronto, você é um artista underground qualquer. Ninguém vai saber quando você morrer de overdose no chão de sua quitinete. Mas, você teve postura em vida. Isso é o que importa. Olha pra você, faz graça com as pessoas que passam e aposto que tem uma casa, um quarto sem rejunte no teto e comida na geladeira. A vida é dura pra você? Artista underground de merda! Estou sem empregado há um ano!

Armei o primeiro soco. Estava na merda. Não tinha um centavo na conta corrente. Ele caiu na primeira. Preparei o chute e o acertei bem no tronco.

 – A vida está dura agora? Responde caralho? Está?

 – Sempre foi, filho da puta. Me mata logo.

Não havia ninguém na rua. Eu estava desempregado há um ano e morava na rua há seis meses. Ele pegou a arma do chão e um pedaço da minha pele foi parar bem no meio de seus dedos.

(foto: Blog Ardo Tempo)