Não sou apegado a melancolias. Não gosto sequer de textos em primeira pessoa. Há um certo egocentrismo neles que me enjoa. Nos textos, na primeira pessoa. Emociona-me mais a declaração de amor do ébrio à garrafa rolando da calçada. Suas mãos rasgando o ar. Com a esperança de pegar o exilir perdido. Emociona-me a carta de amor dos famintos por atenção. Nunca usei a literatura para transar com as palavras. Não há amor aqui. Poesia é lixo. É o aterro mais lindo do mundo. Tudo esparramado. Por isso, não gosto de edições de luxo. Prefiro as feitas em papéis de jornais. As que ficam cheias de traças em um sebo qualquer da periferia.

Literatura tem que ser no papel sulfite azul. É mais barato. O poeta precisa parar as pessoas na rua. Como quem vende chips de celular no centro da cidade. Levar xingamentos. Encontrões. O poeta precisa arrombar portas de bares encardidos e gritar seus versos. Versos sujos, rimados ou redondilhos. Gritar para estourar os tímpanos dos bêbados e dos garotos de programa. Não acredito na literatura de apartamento. Que não enxerga o homem. Versos que falam de aurora enquanto tem gente se fudendo nas esquinas. Poesia na primeira pessoa.

Comprei um poeta. Poema. Um dia, na rua. Enterrou-se na minha frente. Era sujo. Encardido. Estava descalço. Sou poeta. Sussurou. Como que pedindo desculpas. Jogou um livreto nas minhas mãos. Era azul. Com quatro poesias. Falavam sobre o mar. O senhor gosta? Perguntou. Não. Pensei. Dois reais. Ele falou. Não tinha. Ofereci vinte. Centavos. Pode ser. Pegou e enterrou os olhos no chão. Porra, uma lágrima desceu do meu olho esquerdo. Uma só. Aquilo era poesia. O observei  do outro lado da rua. Olhou para as moedas. Ele também chorava.Por outro motivo.

Dez segundos depois ele estava pronto pra outra.Torci pra ele. O poeta. Enterrou-se na frente de um senhor com uma bíblia debaixo do braço e um terno amassado no corpo. Ofereceu seus versos. O homem pegou em sua mão direita. Tomou o livreto da sua mão esquerda. Amassou cada verso. Jogou no meio da avenida. Um caminhão terminou de destruir a poesia. O homem de terno se ajoelhou no meio da calçada. Apertou a cabeça do poeta e começou a orar. Salve esta alma satanás. Eu já torcia pra satanás. Salva. Salva, por favor, Satanás. Tira esse homem do caminho da poesia. Tira.

O poeta chorou. Deitou no chão e clamou a deus. Estirado. A sacola de supermercado que o ajudava a carregar os suas cópias de seu O Barco, esparramou na calçada. As pessoas pisavam, uma por uma. Nunca vi tanta poesia. Toda ensebada em uma calçada qualquer. Emociona-me a pessoa esparramada. A poesia é jogada. Enquanto isso, os pés passavam, um por um, escandalizados, na calçada.

Escandalizados

Poesia

E

Bíblia

Batem

Palmas

Na

Calçada

(foto: A possessão, Paula Rego)