Era a terceira vez que eu acordava às cinco da manhã e saía por ai. Essa merda estava me matando. Meu cardiologista disse que não passaria dos trinta naquele ritmo. Disse que precisava me movimentar. Sair de casa. Tomar um ar. Escolhi a manhã. Era a terceira vez. Enquanto observava velhas de calças coladas e olhos fundos, o sol se levantava. Aos poucos, seus raios mostravam mais de perto a tristeza da cidade.  Homens calvos, cansados, curvados para a direita, esboçavam um trote militar. Eu andava na beira do lago e pensava que merda eu estava fazendo com a minha vida.

Quando estava bem na metade do caminho, ele chegou. Era preto. Quatro portas. Nada se via aqui de fora. Vinha em alta velocidade. Aproximava-se das velhas. Dentro, quatro jovens. Um deles, de óculos de armações grossas, roliço, me chamou a atenção. Seus olhos eram tão esbugalhados que, ao se fixarem em mim, pensei que iam rolar até os meus calcanhares. O barulho que o veículo fazia contrastava com o nosso silêncio aqui fora. Na beira do lago. Eu andava. O carro se aproximava. Olhei de lado, os jovens sorriam. Exceto o dos olhos. Ele era calado. Seus olhos alcançavam longe. Mais cinquenta metros e o carro estava rente aos meus ombros.

Vi  Satre. Mais ou menos. Eram cinco da manhã. Esfreguei os olhos. O carro parou. Os jovens desceram. Menos o Satre. Ele continuou imóvel, implacável com seu olhos gigantes a me observar. Como um caminhão de pedregulhos no vidro, eles começaram a gritar. Filho da puta. O que você está fazendo? Seu merda. Pode parar com isso agora! Desgraçado.  As velhas deram um pulo, correram na direção contrária. Os calvos saltaram os olhos. Sussurros invadiram o ar. Silêncio. Quando olhei pra trás, não havia mais ninguém. Só eu, três homens e o Satre. Eles não pararam de gritar. Começaram a correr. Corri na frente. Nem duzentos metros eles me alcançaram.

Levaram-me ao chão com três pontas pés. Cai. Cada um se ocupou de um membro. O braço esquerdo balançava no ar. Levaram-me até os pés de Satre. Impassível. Caí a seus pés. Meio inconsciente. Eram cinco da manhã e eu estava aos pés de Satre, na beira do lago. Ele nada me dizia.

A existência precede a essência. Lembrei. Tentei abrir os olhos. Não consegui. Era como um castigo. Pensei. Lógico que Satre não estava realmente ali. Eram só quatro adolescente drogados voltando de alguma festa. Aquele carro. Aqueles gritos. O que eu estou fazendo com a minha vida. Foi meu cardiologista que disse. Sussurrei. Foi ele quem mandou, Satre. Jamais faria isso com a minha liberdade. Suar. Às cinco da manhã na companhia de velhas vazias.

Me dá um cigarro, Satre? Vou pra casa. Vou beber o último gole de vinho que sobrou da noite passada. Vou ligar pra ela. Me ajuda, Satre? Eles riam, os três, menos Satre. Eu sei que riam. Seu merda. Seu merda

(…)

O carro cantou pneu. O Satre se foi com aqueles adolescentes filhas da puta. Tinha um resto de vinho lá em casa. Eram cinco horas e eu não estava na cama. Eu iria faltar no cardiologista amanhã. Eu era jovem, pouco tempo me restava.

(foto: Facebook/Existencialismo Virtual)