Algumas vezes me deparo com situações em que confirmam para mim porque o mundo está essa coisa maravilhosa. Para quem não entende ironia, isso foi uma. Eu estava passando em uma livraria, e dei uma olhada no “guia politicamente incorreto da filosofia”. Eu já sabia que a fama do livro era a de que qualquer garoto do ensino médio poderia escrevê-lo. No entanto, essa fama estava equivocada. Eu colocaria que qualquer garoto do ensino fundamental poderia escrevê-lo. Provavelmente, foi elaborado por alguém que foi frustrado em algumas habilidades de desenvolver-se como pessoa, deixando de colaborar com o mundo, para sair proferindo em livros, frases provindas de sua cabeça, sem embasamento algum, ora citando Darwin, ora citando sua ‘ilustríssima’ imaginação.

Bem, vou colocar a primeira frase que me chamou atenção, logo na orelha do livro: “A pressão pela ‘crítica ao macho’ contamina as relações, porque na prática as mulheres só aguentam a sensibilidade masculina até a página três”. Meu primeiro pensamento: “quem é o escritor desse livro? Só pode ser um homem”. Logo fui à contra-capa confirmar. Dito e feito. Um homem. Luiz Felipe Pondé, doutor em filosofia moderna pela USP/Universidade de Paris e pós-doutor pela Universidade de Tel. Aviv em Israel, Professor na PUC… e mais um monte de titulações (outro pensamento me surgiu: essas titulações só me mostraram que alguém que estudou tanto pode continuar ignorante e tornar-se apenas um idiota com boas referências).

Abri o livro e comecei a procurar esse capítulo que dizia sobre mulheres e homens e o raio que o parta. A segunda frase que me chamou atenção foi a seguinte: “Certo dia, sentado ao lado de uma amiga um tanto feminista (infelizmente, porque ela é bonitinha, e feministas, normalmente, são azedas porque são feias) […]”. Eu fiquei pasmo. Feministas são “azedas” porque são feias. Foi isso o que li. O fato de elas serem “azedas”, não tem nada a ver com o fato de morrerem todos os dias apenas por estarem na condição de mulheres (por favor, preste atenção no que estou falando para não distorcer: morrem por SEREM mulheres, isto é, por violências características de um homem contra uma mulher, que não aconteceria de um homem para outro homem. Não sei explicar melhor do que isso, então reacionário, por favor, ENTENDA: não é vitimismo). O fato de serem “azedas”, de acordo com Dr. Luiz Felipe, com certeza não tem a ver com os mandamentos ao corpo da mulher: “não pode mostrar muito as pernas, porque é puta”, “não pode usar roupa assim porque é vulgar”, “mulher minha não usa roupa assim não”. O fato de serem “azedas”, obviamente não tem nada a ver com o medo de andar na rua e ser estuprada. O “azedume” das feministas, não tem nenhuma relação com o beijo forçado que algum homem “muito educado” tentou “roubar” (leia-se forçar). Ser “azeda” com certeza não diz respeito ao fato de uma mulher ter que ser duas vezes melhor que um homem para ser considerada competente em alguma coisa. O azedume, na verdade, tem relação com a beleza delas, é claro. Como não pensei nisso antes?

Mas não acaba por aí. O título do capítulo seguinte dizia: “O mundo respira melhor quando tem mulher bonita por perto”. Em seguida, começou o restante das abobrinhas: “As feias odeiam as bonitas (os feios e pobres também porque não conseguem pegá-las). Não, não estou sendo cínico. A beleza não é um ponto isolado no espaço, mas um gradiente e um conjunto de características físicas associadas a traços ‘invisíveis’ da alma.” Em outro trecho escreve: “Por isso é melhor levarmos a beleza mais a sério. Toda tentativa de proibir a exibição da beleza feminina é um ato nascido da inveja. Se você for bonita, observe se no trabalho não tem alguma feia que a detesta. O ódio das feias pelas bonitas nada mais é do que a agonia que a abundância gera na precariedade […] a falta de beleza é regra (quase) universal”.

Diga-me uma coisa: Quem são as pessoas predominantemente consideradas bonitas em nosso mundo? Como no livro ele se referia às mulheres, posso refazer a pergunta: quem são as mulheres consideradas bonitas na atualidade? Você, leitor, pensou em quem? Alguma negra? Alguma asiática? Alguma índia? Alguém acima do peso? Alguém abaixo do peso? Alguém que difere da beleza europeia? Se sim, por favor, me comprove que essa pessoa realmente é um exemplo de padrão feminino de beleza, e é reconhecida, por isso, em nível global. Caso contrário, podemos deduzir que o tal renomado professor deixou de consultar algumas fontes; esqueceu-se de olhar alguns quadros antigos, nos quais, evidentemente o padrão de beleza era outro. Então, não venha me dizer que a beleza é uma essência, algo que está separado de nossa relação com a cultura e o meio em que vivemos.

Percebi que, ainda por cima, o autor estimula caraminhola na cabeça das pessoas, colocando mulheres contra mulheres. Afinal, a “feia” não te odeia porque a sua personalidade não agrada ela. A “feia” te odeia porque você é bonita. Olha a futilidade em que ele às submete.

Ele parece ter uma concepção de homem ainda mais baixa. Essas frases que estou trazendo (diga-se de passagem: foi apenas algumas folheadas no livro, enquanto estava em pé em frente a estante), são típicas daquele homem “romântico”, que diz tratar bem as mulheres, e as endeusa como princesas, porque para ele, o sexo feminino é delicado como uma pétala de rosa, então, se você é mulher, merece ser tratada com todo amor do mundo… Desde que você seja branca e delicada, é claro. Os românticos não faziam poemas chamando de anjos, ou de flores, mulheres gordas e/ou negras. Além do preconceito por etnias, no fundo, esse tipo de homem está interessado em manter sua dominância. A intenção é ser o macho alfa. É por isso que a “delicadeza feminina” é enaltecida. Àquelas que possuem uma posição mais forte são temidas, pois colocam em risco a frágil autoestima masculina. Talvez isso não esteja claramente na cabeça do professor Dr. Luiz Felipe, no entanto, ele cresceu nesse mundo, e esse mundo faz questão de fazer diferenciação de comportamentos masculinos e femininos. Esse mundo cria pessoas machistas!

Vale ressaltar, que é óbvio que há diferenças biológicas. Não há o que contestar nisso. E talvez essa diferença biológica possa influenciar de certa forma os comportamentos das pessoas. Todavia, tal aspecto não se generaliza a capacidades, a direitos e a beleza. Uma mulher CONSIDERADA bonita POR UM GRUPO ESPECÍFICO DE PESSOAS, não tem o poder inato de fazer o mundo respirar.

No começo desse texto, ele disse que a mulher não aguenta a sensibilidade do homem. Afinal homem não pode demonstrar sentimento. Tem que ser másculo. Me desculpe, mas se há mulheres que não gostam de homens sensíveis, isso é uma questão de gosto, e pode muito bem viver em harmonia com o mundo. Agora generalizar isso para toda relação humana, não considero uma constatação muito estudada ou pesquisada. Claro, é possível que haja mulheres que reproduzem o machismo, que considerem o homem sensível algo bizarro ou ridículo. Todavia, os próprios homens possuem terror em serem sensíveis, e acabam selecionando para modelo a ser seguido, homens que não emitem sua sensibilidade, pois ao comportarem-se assim, são punidos. Mas, são punidos por quê? Em minha opinião, o medo é de se assemelhar às mulheres.

O pior de tudo isso, é que o livro provavelmente é lido por muitas pessoas que leem e acreditam que as titulações do escritor dão total confiabilidade em seus argumentos. As pessoas que buscam ler isso, provavelmente já possuíam ideias parecidas, e acabam sendo reforçadas a pensarem assim. Talvez a igualdade de direitos, de cidadania, de humanidade, demore a chegar, pois com doutores escrevendo esse tipo de ‘proeza’, fico com a impressão que o mundo está voltando no período histórico, ficou de ponta cabeça e está girando no sentindo contrário.

Felipe Boldo