Naquele dia de muita chuva, não sabia o porquê, mas ele tinha esquecido o livro de física em seu quarto, logo ele que nunca havia esquecido um livro em todos esses 3 anos.

6:00h da manhã, percebeu que não teria dinheiro pra passagem amanhã, decidiu pensar nisso mais tarde. O calor das pessoas tão juntas num vagão de metrô já não incomodava mais.

6:40h. O vento cortante finalmente atingiu seus punhos descobertos pela jaqueta, que há tempos não servia adequadamente em seu corpo, na estação da Luz. Decide economizar uma passagem e enfrenta o caminho frio até o portão de ferro. Em seu fone algum rapper dizia o quão duro a vida poderia ser.

7:00. Entrou no colégio, como de costume, se dirigiu a sala sem falar com ninguém. Ele não entendia muito bem o porquê, mas as pessoas naquela sala achavam um absurdo estudarem ao lado de alguém que não pagou pra estar ali, mal sabiam eles o quanto aqueles livros preparativos haviam lhe custado.

7:10h da manhã, primeira aula: Física. “Todos abram o livro na pagina 149”. “Posso usar seu livro professor?”. “Ora, ora parece que temos alguém entre nós que pensa que é melhor a ponto de não trazer o próprio livro e ainda esperar por regalias”. “……”

12:00h. Ainda na última aula, as piadas sobre o ocorrido mais cedo estavam sendo propagadas em todos os cantos.

12:30h. A fome já havia dominado todo o corpo do jovem, o rapper em seu ouvido continuava a dissertar sobre o quão duro é a vida, o metrô continuava cheio.

13:00 da tarde, nunca um bife requentado pareceu tão bom. O recado de sua mãe no microondas tirou um sorriso do rapaz. “Sobrou um pouco de feijão na geladeira, vou chegar um pouco mais tarde hoje, te amo, bom trabalho”.

14:00. Consumiu sua quantidade diária de pornografia.

14:30. Tomou seu banho.

15:00. Saiu de casa e foi em direção ao ponto de ônibus na esquina de baixo.

15:30. Desceu e esperou seu segundo ônibus.

15:50. Chegava ao velho mercado da rua São Pedro.

20h da noite, a casa continuava vazia, tomou seu segundo banho, e a fome havia voltado. “Vai colar no baile hoje?”. “Pô meu, amanhã tenho aula”. As mensagens vão ficando cada dia mais repetitivas.

21h da noite, deitado naquela cama, que já não era suficiente para confortar todo o seu corpo, por um surto de raiva pega o celular e comunica o amigo “To chegando ai no pico”. Vestiu-se rapidamente. Trancou a casa (vazia ainda). Pegou o ônibus.

22h começava a ouvir o som dos carros. No meio daquela multidão, com uma bebida em uma das mãos, rindo enquanto os amigos contavam suas histórias de bailes anteriores. O cheiro da prensada invadindo o ar. Ele viu o quão feliz estava, sem olhares diferentes, olhando garotas que retribuíam o olhar sem desprezo, naquele lugar lotado como o vagão de metrô, passou pela cabeça dele a pergunta que já fazia há tanto tempo “por que eu continuo indo àquele lugar?”. E, por um segundo, ele tinha feito a decisão de abandonar àquelas piadas, aqueles julgamentos, aquelas diferenças.

01h. Pensou na mãe, resolve ver se ela já havia chegado em casa. “Luís kd vc?”. “Luís vc ta bem?”. “Luís me liga”. Aquelas mensagens junto com o horário na tela do seu velho celular só fez ele pensar o quão egoísta ele estava sendo.

02h da madrugada, o último ônibus passa ladeira à cima, desesperado, Luís ligava pra sua mãe, ninguém atendia. Sem saber o que fazer, o jovem sentiu as gotas da chuva em seu cabelo crespo, já sem esperança, sentou na calçada do ponto de ônibus, quase chorando por não saber onde sua mãe estava se sentindo culpado por não ter avisado, angustiado por saber que não poderia ir à escola amanhã, com medo do que sua mãe falaria pra ele, com vergonha de estar ali, sentado, na rua como seu irmão era encontrado todos os dias. E o pensamento que finalmente lhe arrancou às lágrimas daqueles olhos secos. Era o remorso de ter esquecido o livro de física.

Logo ele que nunca havia esquecido nenhum livro nesses 3 anos.

Lucas Brandão