“Vem cá meus violeiros. Vem cá meus companheiros. Vamos cantar as cantigas, do nosso cancioneiro. Somos todos cantadores. Somos todos sonhadores. A bandeira na frente, a gente segue a corrente. Rio Novo transparente, procissão de três reis. Viva a reza desse povo, viva o povo brasileiro! Viva a reza desse povo e viva o povo Brasileiro…”, cantam as vozes ao som das violas, sanfonas e pandeiros, o som de uma das mais antigas tradições católicas do Brasil. A Folia de Reis como popularmente é conhecida, é uma mistura de danças e músicas em que os grupos de foliões apresentam nas casas dos fiéis.

“Ai, que bandeira é essa aiá? Na porta da sua morada, aiá! Onde mora o cálix bento, e a hóstia consagrada! E a hóstia consagrada, ê rê rê…”

Com início em 25 de dezembro, dia do nascimento de Jesus, as comemorações se estendem até 6 de janeiro, em que é celebrado o dia dos Reis Magos. Segunda a lenda, avisados por uma estrela no céu do oriente, caminharam até o local do nascimento de Jesus, levando presentes para o menino. Comemorada desde o século XIX e trazida ao Brasil pelos portugueses, a Folia de Reis não é apenas cultura católica, mas também importante tradição do folclore brasileiro, mantida ainda hoje em diversas regiões do país.

Em alguns lugares, o dia de Santos Reis passou a ter grande importância, até mais do que o próprio Natal. Em Muqui, no Espírito Santo por exemplo, acontece desde 1950 o maior encontro nacional de folia de reis, organizado pela Secretaria Municipal de Cultura, reunindo cerca de 90 grupos de foliões dos estados vizinhos. Em outros estados a comemoração acontece com frequência em cidades do interior. É o exemplo de Londrina, interior do Paraná, em que o grupo Mensageiros da Paz mantém viva, há 25 anos, a tradição folclórica e religiosa.

“Que encontro tão bunitu aiá! Que fizemu aqui agora. Os três reis do oriente, São Jusé e Nossa Sinhora! São Jusé e Nossa Sinhora, ê rê rê…”

“A folia é tradição na minha família. Sou devoto dos Reis Magos desde pequeno, e procuro manter viva essa tradição de levar a mensagem do nascimento de Jesus até as pessoas”, afirma Francisco Garbosi, de 76 anos, líder do grupo. E é percorrendo as ruas de antigos bairros da cidade que o grupo entra em algumas casas de moradores que aceitam receber a visita, dançando e cantando versos inspirados no nascimento de Cristo.

O senhor Francisco conta, orgulhoso, que ao longo dos 13 dias de festa, aproximadamente 150 casas são visitadas e que na maioria das casas os moradores pedem para que eles retornem no próximo ano. É o caso da Aparecida Ribeiro, conhecida por Dona Cida, moradora do Conjunto Semiramis, que há 3 anos abre as portas da sua casa para os foliões. “É uma alegria imensa, trazem prosperidade para o meu lar, renovam minha fé e me dão esperanças para acreditar num ano melhor que vem chegando”, conta.

Tamanha importância para a cultura brasileira e regional, a Folia de Reis foi tema para um projeto realizado pela professora e pesquisadora Lia Marchi, que trabalha com o registro e a documentação de tradições musicais populares no Paraná. No período de 2010 a 2011, a equipe de pesquisa acompanhou grupos de foliões de Londrina e outras cidades do norte do estado, entrevistando e documentando em vídeos e imagens as danças, músicas e depoimentos das pessoas que fazem parte da história da folia e procuram manter viva essa tradição. O resultado do trabalho realizado pela professora Lia e sua equipe, estão disponíveis no site http://www.foliasnorteparana.com.br

Para o projeto, a tradição da Folia de Reis vai muito além de folclore e religião: “As folias, em sua organização e seus propósitos e percursos, traduzem os valores do homem do campo. Nas suas incursões anuais às pequenas comunidades e às casas dos devotos, levam mais que cultura: levam informações. Dão notícias dos amigos, reportam a situação econômica local, alimentam o diálogo e a oportunidade de encontro, reforçam um modo de vida e um sistema de valores ligados ao Brasil rural” (conteúdo do site Folias Norte Paraná).

Perguntado sobre o futuro das folias de Reis em Londrina, o senhor Francisco diz apostar nas crianças que o acompanham, encantadas com as vestes, danças e cantos. Mas reconhece as dificuldades e receoso lamenta que nem sempre os jovens dão importância a essa cultura: “hoje a juventude tá preocupada com o celular, o tablete, a internet e perde o interesse por essas tradições. Acham que isso é coisa dos mais velhos, do passado. Mas só a sensibilização das crianças e dos jovens vai manter viva essa e outras tradições”.

“A bandeira vai se imborá. As fitas vai avuando. Se despede desta casa, pra voltá no outro ano! Pra voltá no outro ano, ê rê rê…”