Ele era esquálido. A pele da face lhe sobrava. Seus olhos formavam duas finas linhas horizontais sobre seu rosto. Rasgados. Um chapéu desbotado lhe cobria os cabelos, já raros, da cabeça. Estava encostado na janela. Seu antebraço ossudo tomava uma surra do vento. Trajava uma camisa azul dois números acima do ideal. No bolso, um maço de cigarros. O calor lhe escorria pelas têmporas.

Nas avenidas, o ônibus aumentava a velocidade. Seu corpo bambeava. De um lado, pro outro. No intervalo de dois minutos, havia levado dois encontrões. Mesmo no canto. Em seu canto. Olhava atento. Não para as pessoas. Para os cachorros. Seu rosto se movia, como uma engrenagem sem óleo, a cada cachorro que encontrava. Havia um cachorro em sua vida. Só aceitava cair duro no chão do ônibus por cachorros. Ou, talvez, fosse apenas mais uma loucura de sua cabeça senil. Era a síntese da velhice. O velho do ônibus.

O poeta que passa sua vida a criticar quem o critica no Facebook. O menino que passa duas horas por dia no academia. A menina que dá a vida para ganhar seguidores no Twitter. O intelectual que acha tudo uma grande perda de tempo. O bêbado que dorme no banco da praça central. Os ricos nas coberturas de bairros nobres. Os pobres nos barracões da cidade. Todos ficarão velhos. Todos serão o velho do ônibus. Passarão a se arriscar por cachorros sarnentos. Mesmo aqueles que morrerão cedo. Também esses ficarão velhos.

É a sina humana. O problema que a ciência ainda não resolveu. Estão todos a beira da morte. Você e o velho. Por mais que ela demore anos pra bater em sua porta. Irá chegar. O choro do luto é egoísta. Choram porque sabem. Morrerão também. Há centenas de problemas que o homem é capaz de solucionar. A fome, por exemplo. Dê comida aos pobres. Partilhe os alimentos produzidos. Pronto.

A morte, porém, é implacável. E, apesar disso, não há uma preparação pra isso. Não há uma matéria sobre isso na escola. Os homens aprendem que são eternos. Que o câncer não irá chegar se ele comprar um apartamento na praia. Que os órgãos irão voltar ao normal se andarem sempre na moda, com o carro do ano ou ganharem um cargo naquela empresa foda. Não há nada mais cruel que isso. A morte deveria ser celebrada. “A passagem” seria o nome.

Os olhos rasgados. Seus trajes. Seu desinteresse pela humanidade. Pelas pessoas. Era como se fosse invisível. No canto. Em seu canto. A pele já lhe saía da alma. Olhava os cachorro com intensidade. Era como um pedido. Leva-me daqui. Estava implorando para os seres não humanos. A vida lhe pesava. Pesa a todos. A lufada de vento em seu antebraço continuava. O velho do ônibus está a se despedir de todos. Mais cedo ou mais tarde será você, o poeta do Facebook e o rico da cobertura. Todos juntos. Não adianta derramar lágrimas de luto. A morte é implacável.

(Foto: ‘Dois homens com fundo vermelho’, pintura de autor desconhecido”