Sara tinha 19 anos. Nem feia e nem bonita. Cabelos retos, repartidos ao meio, cortados mês a mês acima dos ombros. Unhas feitas semanalmente no salão. A maquiagem se resumia apenas a um simples lápis de olho para não sair de casa com o rosto muito apagado. Suas roupas eram uma camisetinha e calça jeans. Nada de saia. Às vezes shorts. Sem muita inovação.

Não era rica nem pobre. Morava em uma casa bem pintada no centro da cidade: o pai trabalhava em um escritório fazendo contabilidade, e a mãe preferia não trabalhar, pois considerava papel do homem sustentar a casa, afinal uma boa mulher, mãe de família, deveria estar presente para marido e filhos, deixando a casa com aquela característica de cuidado materno.

Sara tinha um namorado. Religioso, assim como ela. Com ele casaria, teria filhos, viajaria nas férias para a praia, iria à missa aos domingos, e ao final da vida brincaria com os netinhos e morreria. Mas só se encontravam aos finais de semana, pois ela precisava estudar, e ele também.

Sara era mediana. Nada de especial para um primeiro olhar. No entanto, extremamente exigente consigo mesma. Pontualíssima: sempre a primeira a chegar na sala de aula da faculdade. A primeira da turma em notas. Não tinha muitos amigos; a maioria das pessoas eram babacas. Riam muito. Eram hipócritas. Criticavam o mundo, o sistema, o capitalismo, mas suas ações os mostravam como mais do mesmo.

Sua rotina se configurava em acordar todos os dias às seis horas da manhã. Mesmo aos domingos. Tirava o pijama, vestia a roupa, escovava os dentes, tomava o café da manhã, assistia as aulas, ia para o estágio, e estudava à noite durante duas horas, nada a mais, nada a menos. Não havia correria na vida de Sara. Tudo era planejado e organizado. Sem surpresas. Também não tinha barzinho no final de semana, baladinha na sexta à noite, nem jantar fora ou cinema com namorado. Muito menos coisas mundanas como navegar em redes sociais. Muito povão. Gostava das notícias, e por vezes ficava pensando como estava difícil ganhar dinheiro com tanto desemprego. Não queria cair nas garras dessas coisas fúteis da vida. Queria ter uma vida comum, correta, moral, de bem.

Certo dia, o ônibus, no qual ela voltava do estágio para a casa, foi assaltado. O motorista foi retirado de seu lugar, e o ladrão encapuzado começou a conduzir o ônibus. As pessoas gritavam, mas o bandido usava uma arma. Sara estava com medo. Não tinha programado aquilo. Seu coração disparava mais que tudo. O delinquente dirigia como louco por caminhos nunca vistos.

Parou no acostamento da estrada e chacoalhando um saco preto recolheu de cada passageiro tudo o que conseguiu pegar. Sara entregou o celular, abriu a mochila para o Sr. Ladrão olhar, mas ele não encontrou nada que o interessasse. O que foi uma sorte, pois havia bem ao fundo, sua carteira com 200 reais.

O ladrão pediu para todos descerem e fugiu com o ônibus. Ficaram todos ali, assustados, lamentando-se, sem saber o que fazer. Aos poucos começaram a tomar seus rumos em direção à cidade. Não Sara. Ela sentou em uma pedra, com o coração aumentando um compasso a cada segundo. Estava paralisada. O que tinha sido aquilo? E agora? E seus contatos? Não lembrava nem um número de telefone de cabeça. Não sabia onde estava. Como voltaria? Só tinha 200 reais no fundo da bolsa. Seria o suficiente para um táxi? O que seus pais diriam ao verem que não chegaria em casa no horário? “Coisa boa não deve estar fazendo.” – diriam. E o namorado? O que pensaria? Na certa que Sara estava o traindo. Começou a entrar em desespero.

Um grupo de jovens que estava no ônibus cochichava logo ao lado. Alguns olhavam para Sara. Ela desviou o olhar com medo que fossem falar com ela. Dito e feito. Foram em volta dela. Questionaram sobre sua saúde, com perguntas típicas de “precisa de ajuda moça?”, “Você está se sentindo bem?”, “Claro que ela não está bem, idiota, olha o olho arregalado dela…”. Isso a ofendeu. Mas a acalmou um pouco. Começou a respirar fundo, e conseguiu dizer:

“E-e-estou bem…”

O grupo riu de alívio. Começaram a puxar assunto com ela. Sara não respondia muito, mas não acharam que ela era antipática, e sim assustada. Chamaram-na, então, para voltar com eles para a cidade. Que escolha tinha a moça. Os acompanhou. Caminharam por quase uma hora, e o céu já estava ficando escuro. Mas já estavam perto da casa de Sara, no centro da cidade. Os pais deveriam estar preocupados. O namorado com raiva. “Ai meu Deus, me ajuda” – pensou.

“Vamos no bar ali um pouco” – disse uma das jovens do grupo – “minhas pernas estão me matando”.

“Gorda desse jeito” – falou seu colega rindo.

“Cala boca Jorge, seu imbecil”.

“Já vão brigar de novo?” – questionou uma moça magrela dos cabelos encaracolados – “Isso vai dar casamento. O bar é por aqui.”

Sara não queria ir para o bar. Pensou em erguer a mão para falar, mas achou que seria ridículo.

“Eu acho que vou embora” – disse meio baixo.

“Não! Olha para você, está muito cansada.” – disse um dos rapazes mais altos – “depois te acompanhamos até sua casa”.

Tentou argumentar, mas todos começaram a insistir para que ela fosse também, e Sara acabou indo a contragosto. Desde pequena aprendera com a família que não deveria ser desrespeitosa com as pessoas, e ficar dizendo “não”.

Na mesa do bar o grupo de jovens pediu cerveja. Uma moça chamada Joana pediu uma caipirinha de cachaça. O cheiro de álcool começou a exalar da pele do grupo, e eles começaram a rir mais que o normal. Sara começou a sentir-se mais incomodada ainda. Joana ofereceu caipirinha a ela. A moça recusou. Joana insistiu três vezes. Três vezes era demais. “Não pode ser tão ruim” – pensou. Puxou um gole pelo canudinho. Inicialmente achou forte. No entanto, o gosto era bom. Era até viciante. Joana parecia gostar que Sara estivesse bebendo toda a sua caipirinha. De repente, Sara estava rindo com todos. O moço da sua frente, Eduardo, fazia cada idiotice que ela nunca tinha percebido como coisas simples eram engraçadas. E agora ria com vontade, fazendo até barulho. Imagina seus pais vendo essa cena…

Ofereceram tequila. Disseram que tinha que beber de uma vez. Ela virou. Aquilo queimava, ardia, e fazia os olhos lacrimejarem. Em segundos estava cantando “Levantou Poeira” com o grupo no bar.

Sara pegou sua mochila. Mal conseguia abrir o zíper, e ria muito disso. Quando conseguiu, pegou seus 200 reais e pagou toda a conta. A gritaria do pessoal foi intensa. Se não estivessem tão bêbados pegariam a moça no colo e fariam urros de comemoração.

Ela pensava o tempo todo que nunca tinha sido tão feliz em sua vida. Passaram a noite cantando e, quando a bebida abaixou um pouco, ficaram conversando horas deitados na grama da praça.

Sara chegou em casa depois das três da manhã. Os pais estavam na sala, com os olhos vermelhos. Depois da enorme bronca, olhou seu e-mail e leu as mensagens ofensivas de seu namorado. Vestiu seu pijama, deitou na cama e dormiu.

No dia seguinte, levantou às seis horas, escovou os dentes, foi para a aula, em seguida para o estágio e voltou para casa a noite. Aos finais de semana encontrava seu querido namorado. Anos mais tarde, casou e teve três filhos. Formou uma vida baseada nos bons costumes, na moral, em gente de bem. Mais um tempo se passou e teve netos. Então morreu.

Felipe Boldo