Eu passava por aquela rua todos os dias. Todos não, de três a quatro vezes por semana. Corria por ali. Pois é, a barriga chegou, aos vinte. Era a rua rica do meu bairro. Foi assim que eu a apelidei. Casas gigantes. Quintais espaçosos com cadeiras de praias coloridas. Varandas bem pintadas, geralmente de branco, decoradas com esculturas neoclássicas. No mínimo, dois carros na garagem. Vez ou outra eu dava a sorte de ver, de relance, os seres que habitavam aquelas casas. Brancos. Sorridentes. Felizes (como não estar?).

Sempre que passo por ali eu faço contas. De quanto eu preciso para comprar uma casa nessa rua? Qual a profissão que precisaria ter? Será que precisaria ser mais claro? Ter feito medicina? Ou, na verdade, ninguém de fora mora nessa rua, só quem já nasceu aqui é que fica aqui? Sempre que passo pela rua estou suado. O sol das quatro da tarde reflete no meu sapato furado. O que será que eles estavam fazendo aos vinte anos? Aposto que não corriam por ai para perder a barriga cunhada com cerveja barata e hambúrguer gorduroso.

Vinte anos. De repente, me dei conta. O que eu fiz até agora? Algumas dores renais. Uma faculdade incompleta e nenhum amigo. É como um mantra pra mim. Repito três vezes para se tornar verdade. Vinte anos. Vinte anos. Vinte anos. Rimbaud, aos dezenove, já tinha escrito toda sua obra. Se morresse aos vinte, já seria o maior dos poetas franceses. Aos dezenove. Tenho vinte. Se morresse agora, o que eu seria? Há dois meses não ligo pra minha mãe. Há seis não vejo meu pai. Corro para não estar na metade de minha vida – ou será que corro para passar por aquela rua?

Com a testa encharcada de suor. O shorts engordurado e o sapato furado. A camisa com cheiro de ontem, penso em Rimbaud, na Rua Rica e na minha vida. Quantas crônicas preciso escrever para comprar ali? (aponto com o dedo na esperança de receber alguma resposta). Quantas? Diga logo! Minha cabeça dói. O sol já castiga. Tenho a impressão que o sapato rasgou mais algumas pontas. Agora apenas dez pontos o seguram nos meus pés. Quase termino a rua. É a penúltima casa. Um homem sai. Branco. Cabelo cortado à moda. Camisa polo cor de gema. Calça jeans agarrada nas pernas. Ficamos frente a frente. Olhamos-nos. Os dois, de cima a baixo. Ele, passa pelos meus sapatos furados, minhas pernas finas, parece estranhar a tonalidade de minha pele, a espessura de meu cabelo, faz menção de se proteger. Eu o olho e vejo um grande escritor de Best seller. O brilho de seu cabelo reflete na minha existência. Era tudo que eu deveria ser.

Há poesia naquele momento. Eu, naquela rua, suado e de sapatos furados. Ele, de sapatos brancos, pele mais branca ainda, saindo de uma daquelas casas. Pode ser que não seja o dono da casa. É apenas um visitante. Quem sabe. Olho de canto ao meu redor, todas as outras casas tinham um belo quintal, achei, de relance, ter visto uma piscina com água cristalina em uma delas. Talvez.

Ele me olhou de cima a baixo. Esboçou um movimento tímido com a cabeça e seguiu para um carro prateado de quatro portas. Lindo. Ali tinha poesia. Assim que ele deu a partida, eu tirei os sapatos. Corri mais. Cheguei à minha rua e respirei aliviado. Ele parecia ter uns quarenta anos. Ainda há tempo. Devo escolher minha rua. Fecho minha crônica da semana.

(foto: The Paintings of Francesca Bifulco)