Prefiro o escuro. As luzes me incomodam. Machucam minha retina. Há vinte anos que cubro minha cabeça ao me deitar na cama. Há dez, dobro as esquinas da cidade de cabeça baixa em dias de calor. Há cinco, tento, desesperadamente, abaixar o brilho das bugigangas tecnológicas de nosso tempo. Há um, ela se foi.

Era ano novo. As luzes, nesse dia, ficam mais insuportáveis. Elevam-nas aos céus. Pinto-me de preto. Prefiro datilografar pela noite adentro. Ouço gritos pelos céus. Fogos. Na minha escuridão, de janela fechada, consigo distinguir duas baratas. No canto, imóveis. Aquela estacidade me paralisa. Não como Clarice. Nada contra, mas não vou caminhar até o canto, puxá-las pelas patas e comê-las. Nada etéreo e subjetivo. Não vou mastigá-las, mas não vou afundar minhas solas em suas faces. Não no ano novo. Não igual ele fez comigo.

Daqui, de longe. Parece-me que elas brigam por uma migalha de pão. Velho. Esquivo-me um pouco para ver melhor. Penso em ligar a luz. Desisto. De claro, basta-me os fogos. Ano novo, aquele casal ali (Prefiro pensar que se relacionam de algum modo, as baratas) brigando pelo pão. (Ou estariam a compartilhar gentilmente a porção?). Basta-me. Por um minuto, talvez mais, cheguei a pensar na casa delas, em seus filhos, em seus sonhos (Baratas sonham?). Enxergar o outro é o mais difícil dos exercícios humanos. O outro. Seu vizinho. O pedestre e assassino e Você. Afinal, juntos. Ou, Woody Allen, Clarice Lispector e Donald Trump. Todos juntos. (As baratas também?). É ano novo e, há um ano, ela me deixou.

Por um segundo, chego a pensar que o casal se aproxima de mim. (Estariam prontos a me oferecer a migalha?). Chegam a dois metros do pé de minha cadeira. Passos miúdos, ágeis, moviam-se com certa leveza e, em algum momento de devaneio, diria até com certa graça. Em outro momento, as esmagaria com meu polegar direito e, com o esquerdo, as lançaria no chão. Mas, é ano novo. Aquele casal nem terminou de comer. Os fogos explodiam no céu. Minha cabeça explodia. E, há um ano, ele me deixou. Deixei-as seguir. Subiram na mesa e, de supetão, deram uma leve piscadela, como se fossem meus cúmplices em algum plano secreto. Deram-me certo ânimo. Ainda estava escuro. (Eram mesmo só baratas?).

Os fogos se multiplicaram. Era ano novo e eu odiava essa data. Ela (ele?) me deixou há vinte anos. Há dez, cubro minha cabeça ao me deitar na cama. Há cinco, dobro as esquinas de cabeça baixa em dias de calor. Há um, tento abaixar o brilho das bugigangas tecnológicas. Liguei as luzes, eu amo as luzes que os fogos fazem no céu em dias de ano novo.

(foto: Reprodução/ Salvador Dali (1937)