Despeja um uísque barato no copo de plástico. O líquido desliza como pedregulho até seu estomago. Seco. De uma vez. Assim, sente-se feliz. Há dias não sai de casa. Seus pés formigam. A cama o engoliu por inteiro. O mofo impregnou suas narinas e o sol lá fora trazia um calor insuportável às suas retinas.

Enfim, possuía o silencio desejado. Irritava-se com suas falas. Com as interjeições efusivas. Sua mesa, agora empoeirada, estava vazia. Vazia. Faz parte da vida, seu lado direito lhe gritava, a poucos metros de seus tímbanos. Saber que as pizzas estragam e as pessoas se vão. Só pode-se ser bom em fracassar. Só.

Esparramado dentro de sua caixa, ao menos podia lhe fazer companhia. Ia até a segunda gaveta e esparramava todas as calcinhas no chão. Deitado naquele piso gélido. Algodão barato. Rasgava-lhes como se seu oxigênio dependesse disso. Uma por uma. Depois, devolvia a gaveta. Organizava-as como ela fazia. Por cores.

A fumaça que soltava de seus pulmões impregnava o ar. Não havia cigarros ali. Estava o clichê hollywoodiano do fracassado. Roupas manchadas. Cabelo ensebado. Hálito azedo. De um filme melodramático, aprendeu que relacionamentos são como tubarões, precisa-se seguir em frente e alimentá-los. Caso o contrário, eles morrem. Um judeu esquálido metido em uma camisa surrada dentro de uma calça de brim cor de creme, lhe dizia diretamente isso.

Nunca parava. Aos poucos, o céu tornava a ficar alaranjado. As nuvens carregadas lhe traziam novos sonos.

Como uma batida de jazz. Os sons lhe rasgavam a cerne. Como um comediante prostrado diante seu público, passava seus dias.

No mesmo horário, como uma cerimônia feudal, ia à segunda gaveta, espremia as calcinhas com tanta força que, de suas mãos, escorriam fios de sangue. Vivo. Rasgava-lhes em pedaços cada vez menores. Dia após dia.

É como aqueles ativistas que ainda possuem fé na humanidade. Como os pais que, com um filho no colo, esperam que o mundo pare e observe o nascimento de uma nova vida. É como Raskólnikov saindo do apartamento Ivanóvna com o machado ensopado de sangue em punho. Nillismo puro. Fluxo de pensamento e mais uísque no copo.

Levantou-se e abriu a janela. Um vento  Há dias não olhava para o pôr do sol a desaparecer no nada. Há dias não olhava o mundo. Há dias não amava. Esticou a língua e puxou, bem no fundo, o último gole uísque na garrafa. Descartou. O pôr do sol. As calcinhas. O copo. O homem com calça de brim. Tudo meio embaçado, como a visão de um míope. Aquele maldito lugar cheirava a mofo ele não tinha percebido até agora. Tudo em pedaços. Buscou outro gole.

(foto: Facebook reprodução: Existencialismo Virtual)