Ultimamente ando meio desanimado com aqueles que tanto criticam as coisas já impostas pela nossa história cultural. Talvez eu deva me lembrar de que a história, o mundo e a sociedade são constituídos por seres humanos, e nossa principal característica é errar. Não é à toa que passa ano, vem ano, sempre ouvimos o mantra “errar é humano”.

Percebi que chego a não ter muitos amigos “comuns”. Por “comuns” entendo a reprodução da lógica branca, heterossexual e normativa. Não tenho muitos amigos que reproduzem a lógica da moral, da “população de bem”. Não tenho amigos que reproduzem dogmas religiosos sem questionar-se primeiro, e não tenho muitos amigos que pensam que ao andar de roupa curta na rua, a mulher “está querendo”.

Vivo em um ambiente onde essas coisas costumam ser constantemente questionadas, discutidas, debatidas e desconstruídas. Talvez, então, minha decepção seja pelo comportamento de alguns homens (e algumas mulheres) que vivem nesse meio. Há duas semanas eu escrevi um texto em meu Facebook falando dos “esquerdomachos desconstruidões”. No entanto, sabemos que texto longo no Facebook é quase como um monte de poeira: ninguém dá atenção. Por isso contive muito do que precisava falar, e reservei algo mais elaborado para esse texto.

Considero extremamente bonito o discurso das ciências humanas a respeito de seu ideal de mundo, direitos iguais para todos, igualdade de gênero, respeito às diferenças etc. É tão pesado, que por vezes algumas pessoas chegam a enjoar de falar sobre. Acabam se questionando da real necessidade de ficar desconstruindo com tanta frequência.

E então, me deparo, em uma só semana, com uma série de atos machistas e homofóbicos vindos de pessoas desse contexto, inseridos diretamente nas ciências humanas. São pessoas que discutem e debatem sobre esse tema o tempo todo. Muitos deles possuem uma didática clara e bonita, e acabamos olhando para eles e pensando: “Nossa, eu queria saber falar assim em público.”. Admiramos sua desenvoltura, sua popularidade e sua inteligência.

Todavia, nada poderia ser tão real quanto outro ditado popular: o tempo mostra quem realmente somos. Não quero que isso caia em um essencialismo, como se nascêssemos com uma essência que diz respeito sobre nossa personalidade e o tempo acabaria por mostrá-la, pois não conseguimos escondê-la. Não é esse o objetivo. O que pretendo dizer/desabafar é que, mesmo quando algumas pessoas enjoam dos discursos de desconstrução, de quebra de paradigmas, há a enorme necessidade de que eles continuem. Precisam continuar porque, em todos os lugares, inclusive no grande centro das ciências humanas, preconceitos de toda uma história social estão presentes.

Eu vejo os “esquerdomachos desconstruidões” falando da liberdade, lutando contra o preconceito, defendendo a liberação da maconha e defendendo a educação. No entanto, não vejo essas pessoas vivendo o que dizem. Protegem os amigos machistas, porque afinal devemos ser parceiros, não é mesmo? Fazem “apenas brincadeirinhas” que continuam reproduzindo a mesma lógica. No ensino médio, era aquele aluno que fazia bullying com todos, se achava o garanhão, e adorava fazer piada com as fraquezas e diferenças de todos. Contudo, quando entram para universidade, em seus cursos de artes cênicas, ciências sociais, filosofia ou psicologia, recebem muitos tapas na cara, no sentido de que muitas de suas atitudes não são mais aprovadas pelos colegas como eram no colegial. Talvez, por isso, sintam-se sem base de vida e até tentam mudar. Mas passam de um preconceito explícito para um mais sutil. Na realidade, falando o português claro, continuam os mesmos babacas de ensino médio.

Vale ressaltar que não quero dizer que não há mulheres que reproduzem o mesmo discurso preconceituoso, afinal, uma mulher também pode ser machista e preconceituosa. No entanto, analisando a proporção, em uma sala de psicologia, por exemplo, há 35 mulheres e 5 homens. Destes, 3 vivem fazendo alguma idiotice. Nesse sentido, então, se em um contexto tão “mente aberta” e “desconstruído” das ciências humanas pode continuar existindo homens e mulheres assim, como será que é fora da bolha acadêmica? A situação é pior do que aparenta para nós, pois nos enclausuramos nas universidades, e por vezes nos chocamos com o mundo lá fora.

Por isso, escrevo por uma defesa da continuidade das discussões: que elas nunca parem, pois devemos sempre lembrar que estamos em uma cultura que legitima preconceitos, e que todos estamos passíveis de reproduzir a lógica contra a qual tanto lutamos. E isso só pode ser mudado a partir do momento que não aceitarmos mais certas atitudes. A mudança só virá quando “não deixarmos para lá” certas questões que até hoje são entendidas apenas por “brincadeirinhas” ou “sem importância”.

Felipe Boldo

(Crédito da foto: freewords.com.br)