Vez ou outra eu paro. No meio da rua. Dentro de um bar.  Do supermercado. Penso na figura de meu pai. Paro tudo. Meu pai era um errante. Nunca o vi parado. Como um equilibrista sem espetáculo, tentava passar pela vida com certa melancolia. Estava sempre a um fio de se espatifar no chão. Derramar todo seu sangue sobre o solo fétido da cidade. Estava sempre bêbado. Também. Um equilibrista bêbado. Cheio de si. Peito estufado. Mudava de emprego, sempre. Todo ano. Ninguém confiava nele. Nunca achei que a intenção dele era essa: ser uma pessoa confiável. Pelo contrário.

Ele passava duas horas comigo. Como uma obrigação mesmo. Batia o ponto e, duas horas depois, saia. Sem dizer nada. Chutava algumas bolas na parede e mandava-me buscar. Ensinava-me como eu deveria me comportar diante a vida. Algumas frases soltas. Sempre ereto. Peito estufado. Tá vendo?, dizia ele olhando pra mim. Nunca confie em ninguém, nem em mim. E chutava a bola pra longe. Eu, minúsculo, olhava pra cima e olhava a imagem daquele homem corpulento, de pés gigantes e nariz chato.

Você é o que pai?, lhe perguntei certa vez. Um equilibrista, disse-me esboçando um sorriso de galhofa. Estava a anotar em meu caderno. Pra nunca esquecer. Mentira, você já me viu dentro de um circo?  Eu não sou nada. Nada. Senti um liquido cor de ouro cair-me sobre a cabeça. Segurava uma lata. Aliás, estava sempre com ela. Na rua e em casa. Você já viu pobre ser alguma coisa? Mas, o senhor nunca sentiu vontade de ser alguma coisa, sei lá, tipo um policial?, lhe devolvi. Seu rosto já ruborizava de raiva e, por fim, gritou: A vida não me deu essa chance. Estuda, menino, estuda. Deu-me um safanão no centro da cabeça e saiu cambaleando.

Acho que meu pai era grande demais pra essa vida. Ele sempre me deu a impressão de que enchia a sala. O quarto. A cozinha. Onde quer que ele estivesse. Mesmo quando fiquei de seu tamanho. Olho no olho. Aquela figura parecia-me gigante. Sempre bêbado, em outra dimensão. Nunca me pareceu que ia ser diferente. Passei a me acostumar. Cresci. Recusei seus chutes. Seus ensinamentos. Suas falas desconexas durante o porre.

Um dia, nosso derradeiro dia, disse-lhe que queria ser poeta. Desses que brincam com as palavras e tentam descolar uma grana nas feiras literárias do interior. Ele carregou o cenho. Olhou-me com desprezo. Era como se todos aqueles chutes no muro opaco da vizinha embaralhados de frases soltas tivessem sido desperdiçados de uma só vez. Você tá maluco? Pirou de vez? E eu lá criei filho pra ser poeta? Vai trabalhar moleque. Isso não é trabalho. Você quer é arrumar um jeito de ser vagabundo pra sempre. Bem que andei te vendo com o rosto atravessado nessas merdas de livros. Vai se fuder. Se eu pegar você com um lápis na mão. Vai. (Estava dentro de casa, na sala, no sofá, mas chutou a bola em minha direção) vai pegar a bola. Qualquer um pode ser essa porra. Sentado eu sou. Trepando eu sou. Comendo eu sou.  Eu sou poeta, pronto está feliz? Agora você tem um pai poeta,  berrava. Percebi a falta da lata de cerveja. Estremeci. Eu mandei você estudar. Ganhar dinheiro. Dinheiro. Comecei a me questionar se ele sabia o que um poeta faz. Decidi não perguntar.

Fez-se silêncio por dois minutos. Exatos. Há uma hora e cinquenta minutos estava ali, comigo. Iniciou o diálogo. Terminou a dois. Levantou-se do sofá. Foi embora. Nunca mais nos vimos. Morreu na sarjeta. No meio de um fio. No meio-fio.  Recusou-se a viver. Foi poeta até o fim da vida. Um equilibrista, meu pai.

(foto: www.antoniobokel.com.br)