Ao levantar-me um dia e dizer: Quero escrever! Joguei-me dentro de uma cela. Ser um escritor é ingrato. Principalmente quando ainda não se é um Escritor. Desses com letra maiúscula. É ingrato porque, enquanto você não puder colocar isso ficha do hotel, você é só mais uma pessoa que inventa baboseiras. Ninguém se importa com seu sonho. Ninguém. Nem você se importa com o sonho dos outros. Claro.

É  ingrato. Difícil de engolir. Não que todo mundo tenha que fazer sucesso com literatura. É arte. Tem gente que não consegue. Ponto. Como ser um estudante de letra que faz trocadilhos ruins e vira poesia. Não dá. Mas, mesmo assim, segue. Tantos clássicos para ler. Tantas línguas para aprender. Tantos contos, poesias, romances para fazer. Logo, logo esse sonho irá acabar. Você começará a trabalhar em uma fábrica suja e monótona. Você não fez letras. Não é rico. Reclamará que não tem mais tempo para escrever e lembrará dessa época cheia de possibilidades com certa nostalgia, típica das últimos instantes de vida. As horas perdidas serão choradas. A certeza de que não fez aquilo que estava ao seu alcance. Crônicas desperdiçadas. Você nunca teve uma chance na Folha de São Paulo. Nunca teve uma noite de lançamento. Nunca.

Ao tomar um café pela manhã você se lembra da noite passada. Nada. Nem uma palavra. Sentado em uma cadeira de madeira triste, em um cubículo mofado, você desliza seu olho em direção ao teto e tem dois irmãos te encarando. Gregor e K. Você acorda de sonhos intraquilos e nada escreveu. Nada. A leitura, aos poucos, lhe parece desnecessária também. Uma rosa te humilha na linguagem. Um Andrade te dá aula de poesia.

Começa a busca desesperada por autores que tenham começado tarde. Por autores que não tenham se interessado por aprender outras línguas na juventude. Por autores que não tenham nascido autores. Nada. Você é só mais um. Sua mãe tem razão: uma hora todo mundo vira assalariado. Não há o que fazer. Esses minutos que você perde de sono para tentar produzir algo é como um relógio quebrado, com a bateria relutante, ele briga, mas uma hora irá parar. É inevitável.

Ao visualizar uma pedra na calçada, em seu caminho, você pensa: isso pode dar uma história. Pensa. Um homem, jovem escritor, de meia idade, está cansado de seu fracasso no mundo editorial, está andando na rua, vê uma pedra no meio da calçada e tem uma ideia para um conto.

Excitado com a nova ideia, que pode lhe abrir a porta no mercado, você vai pra casa, quem sabe irão fazer um filme, mal abre a porta e já corre para seu notebook. Ao abrir a ferramenta de texto, tudo trava. Não pisca. Há uma pedra, no meio de seu caminho. Não consegue desviar os olhos da tela. Morre ao ler uma mensagem em sua frente: pedra. É inevitável.

(foto: http://www.blogs.gazetaonline.com.br/erreinamosca)