Moça, desculpe-me pela sinceridade, mas tenho que desabafar.

Você sabia que o aborto clandestino é a quinta maior causa de morte materna no nosso país? Não sou eu que estou dizendo. É o Conselho Federal de Medicina. Sabia também, que dos 22 milhões de abortos inseguros que são realizados por ano no mundo, 47 mil mulheres morrem de complicações pela prática insegura? São dados da própria Organização Mundial da Saúde. Pode pesquisar. Abra o Google.

Mas se você disser que isso não importa e que está convicta de sua posição, lamento muito.

Lamento porque os seus argumentos não são válidos, moça. Pode dizer que “a mulher que decidiu pelo aborto clandestino sabia dos riscos”. Provavelmente ela sabia. Mas também não tinha opção. Você não conhecia a vida dela. Não sabia os motivos dela. Por que acha que tem o direito julgar a decisão que não lhe pertence?

Moça, estamos longe de aprovar a descriminalização do aborto. E sabe o que isso significa? Significa que mulheres continuarão morrendo. Mas não se trata de quaisquer mulheres. São as da periferia. Porque a mulher rica aborta e a pobre morre.

E pare de culpar as feministas pela luta da descriminalização do aborto. Porque esta luta, moça, deveria ser de todas nós, mulheres. Deveríamos estar todas unidas uma pelas outras. Então, pare. Pare também de dizer que, com a descriminalização, mais mulheres irão abortar. Em que mundo você vive? A OMS já cansou de afirmar que nos países onde o aborto é liberado, a taxa de casos é menor do que naqueles que ainda proíbem.

Além disso, moça, essa causa é uma luta pela vida. Pela vida de todas que morrem clandestinamente. Descriminalizando o aborto, as mulheres pobres poderiam recorrer a um procedimento médico seguro e público. A taxa de morte materna diminuiria. Menos de nós morreríamos.

Moça, entenda. Ninguém vai te obrigar a abortar. Você tem suas crenças, suas virtudes, é dona do seu corpo. Você sabe discernir o melhor para a sua vida. Assim como aquela que aborta. Ela aborta porque não tem condições, psicológicas ou financeiras, de criar um filho. Diga-me, adiantaria uma criança nascer e ser abandonada? Diga-me, moça. Adiantaria uma criança vir ao mundo, mas crescer sem amor? Sem estudar? Sem onde morar?

Aquela criança, que a mãe, amedrontada de ser mais uma vítima do aborto clandestino, preferiu dar à luz, pode ser a mesma que você vê e ignora todos os dias na calçada da sua rua, moça. Sem chinelo para usar, sem o que comer, sem roupa para vestir.

Você provavelmente fugirá do assunto respondendo: “mas se ela não queria engravidar, era necessário apenas se proteger”. Claro. Os próprios especialistas da ONU declararam que o incentivo da educação sexual junto ao acesso aos contraceptivos são essenciais para evitar a gravidez indesejada. Mas também declararam que a restrição ao aborto legal tem impactos discriminatórios e públicos na saúde. Novamente. Não sou eu que estou dizendo. É a ONU.

Quando uma mulher é obrigada a dar à luz ao filho, estão lhe tirando um direito. Estão obrigando-a a criar uma criança, mesmo ela afirmando não ter condições necessárias. Mesmo ela dizendo que não tem responsabilidade para cumprir o papel de mãe. Ela. Entendeu, moça? É ela que tem que decidir. Ela sabe que a dor de ver seu filho crescer em meio à extrema pobreza será maior do que a de não tê-lo. Aliás, você se diz #AFavorDaVida, mas talvez seja apenas pró-nascimento.

Moça, vamos esclarecer uma coisa. Assim como você, a mulher que é a favor da causa não é obrigada a abortar diante de uma gravidez indesejada. Ou seja, escrever esse texto não significa que, se eu me descobrisse grávida semana que vem, eu optaria pelo aborto. Apenas significa que eu sou a favor de que todas as mulheres tenham o direito de decidir o melhor para elas. E que não sejam criminalizadas por isso. Significa, moça, que, para mim, somos todas dignas de respeito. E não cabe à sociedade decidir por nós, mulheres.

(Foto: http://nova-mamae.tumblr.com/)