Diante das tragédias, perplexidade. Quando pequeno, eu sempre achei esse ritual muito esquisito. Famílias reunidas na sala. No sofá, todos com olhar sonâmbulo. Um homem de terno, brilhantina no cabelo, óculos, o mesmo olhar. Um fundo azul. Eu não passava dos joelhos de meu pai. Olhava para todos. Há poucos segundos eles sorriam. O que esse homem lia para todos parecia, como um Ato Institucional, parecia a mais macabra das histórias. Algumas interjeições soltas. Desconexas. Eles balbuciavam algum segredo entre si.

Era uma tragédia que a televisão lhes trazia. Quente. Rápida. Criança, eu, confesso, achava graça. Quando percebi que dois aviões imensos batiam com toda a força em um prédio, ri. Não pensava na possibilidade daquilo ser verdadeiro. O cinema sempre nos surpreende. Pensava. Meu pai, sempre acima de mim, me repreendia. Acertava-me o braço com suas mãos ossudas. Gigantes. Não é pra rir disso, nunca ria da morte alheia. Seu moleque. Dizia quase gritando. Mesmo assim, com aquela queimação no braço esquerdo, eu ria.

Minha mãe me pegava no colo, passava a mão em movimentos verticais na queimação. Passava. Pra cima, pra baixo. Ela tentava me explicar o que eram as tragédias. Se você rir disso, as pessoas vão achar que você é psicopata. Você quer isso? Aconselhava-me. Deitava-me em seu colo e me balançava com os olhos no telejornal.

Hoje, diante das tragédias, lembro-me dos dois. Pai e mãe. Dou-lhes razão. Elas doem como os beliscões de meu pai. São oportunidades para as pessoas mostrarem que são humanas e hipócritas. Afinal, quem ri, é psicopata. Como me aconselhava minha mãe. Não passam de crônicas de uma farsa televisionada.

É preciso saber agir diante das tragédias. Há uma cartilha, como pra tudo em nossa civilização. Mas, no fundo, sabe-se, no cerne de nossa carne que viver é colecioná-las. Nada mais adulto do que entender a morte de centenas de pessoas. Nada mais infantil do que não dar a devida importância a elas.

Hoje, eu, quase adulto, em outra era, entendo. É outra dinâmica, o homem com brilhantina na cabeça e terno já não é o essencial. Ficar incrédulo em sua sala diante de uma caixa mágica, já não é o suficiente. Não. Mas o objetivo é o mesmo. Como dizia minha mãe, é preciso externar sua dor. A dor alheia. Mostrar ao mundo, virtual, quantas gotas lacrimais já saíram de seus olhos. Fotos de perfil. Fotos de capa. Posts. Compartilhamento e hashtags. São milhões de maneiras para quantificar a sua dor. O seu luto.

Caso o contrário, os olhares já começam a entornar perante sua figura na calçada do Facebook.. Você viu, ele não compartilhou nada, nenhum vídeo com os parentes das vítimas. Estranho demais. Deus me livre de gente assim. Quero distância.

Volto à infância, já não sinto mais graça. Claro. Mas, também, não sinto vontade de externar nada. Nenhuma revolta com o destino. A vida é a maior das desgraças. O luto o mais íntimo dos sofrimentos. Ainda sinto que sou um menino no colo maternal diante às desgraças.

Compreendê-las é crescer. Viver é colecioná-las. Uma de cada vez, na memória. Lá no fundo. A consciência da morte é o maior dos castigos humanos. A tarefa mais árdua é ignorar isso. As dinâmicas mudam, mas é sempre preciso, de alguma forma, que se compartilhe a sua perplexidade. É uma questão de segurança social. Eis o maior paradoxo de nossa espécie.

(foto: http://www.facebook.com/existencialismovirtual)