Há tempos não me arriscava a escrever textos opinativos. Muito menos a comentar ou publicar nas minhas redes sociais meus pensamentos a respeito de assuntos que estão em alta. E talvez passarei mais algum tempo sem fazê-los.

Utilizando apenas de alguns exemplos recentes como a discussão em torno da escolha em salvar a vida de um traficante ou um policial; os dois lados da política atual que tem dividido o país; a eleição de um novo presidente americano; ou a, ainda mais recente, morte do revolucionário cubano, a sociedade dá sinais assustadores de desrespeito, ódio, e ausência de amor e humanidade ao próximo.

Não preciso aqui entrar em cada uma dessas discussões citadas acima e comentá-las, individualmente, de acordo com o meu ponto de vista. Poderia. Até desejaria. Mas não seria necessário para trazer a reflexão dos passos que nós, enquanto sociedade, temos dado a caminho do nosso próprio futuro.

Alguns críticos já escreviam a respeito da internet e o seu poder em dar voz para os idiotas. Não imaginava, porém, que a internet nos daria não apenas voz para tolices, mas também para o total desrespeito ao ser humano. Não imaginaria que, na internet, teríamos a capacidade de escrever e defender de forma tão baixa nossa opinião a respeito das coisas e pessoas. Não imaginei também que, um dia, a internet nos daria a possibilidade de desejar, publicamente, o mal ao outro de uma maneira completamente desumana e sombria.

Os mais antigos talvez me corrijam ao mostrar que as pessoas sempre manifestaram seu lado mais sombrio com relação ao outro. Dos primórdios antes de Cristo à Segunda Guerra Mundial. Pessoas condenaram, mataram e foram capazes de atrocidades inimagináveis. Mas não quero acreditar que, em pleno século XXI, com o acesso ao mundo e ao conhecimento ao alcance das nossas mãos, o mundo não tenha evoluído – para melhor.

Tenho visto, principalmente nas redes sociais, amigos cristãos que hoje condenam um homem ao inferno, publicamente. Outros que ainda desejam a morte de alguém como se fossem detentores do poder de julgar ou tirar de alguém o seu bem mais precioso: a vida. Outros ainda que parecem fazer parte de um seleto júri popular divino capacitado e habilitado em absolver ou condenar alguém pelo seus erros.

São essas as mesmas pessoas que daqui a 27 dias estarão, nas mesmas redes sociais, universidades, trabalhos e igrejas comemorando e rezando o aniversário de um menino chamado Jesus. Um Cristo que, por sinal, parece ainda não ter sido o suficiente para nos convencer sobre amar ao próximo – como a mim mesmo – em todas suas condições, decisões, escolhas e defeitos.

Acompanho também dezenas de ateus na mesma situação. Pessoas que por diversas vezes admirei mais do que um religioso pelo bem ao próximo praticado, mesmo quando não há uma ideologia ou promessa de salvação que os motive a isso.

Talvez seja necessário, mais do que nunca, aprendermos novamente a expor nossa opinião e por vezes defendê-la, sem impô-la como única verdade. Reaprendermos a ouvir o próximo, e respeitá-lo em suas decisões. Aceitarmos que nossas ideologias não são, e nunca serão, as mesmas que o outro necessariamente seguirá. Enxergarmos que o diálogo, saudável, talvez seja um caminho para um mundo melhor.

Não sou conhecedor da verdade absoluta. Assim como qualquer um de vocês, também estou adepto a erros. Algumas vezes também sofro com a falta de amor que assombra meu peito e me faz irracional. Um completo idiota. Mas quero acreditar que dentro de cada um de nós ainda restam o amor, respeito, diálogo e compreensão para com o próximo. Qualidades prontas para serem praticadas no nosso dia a dia.

Para concluir essa reflexão, compartilho com vocês a poesia escrita e cantada por alguém que recentemente nos deixou mais órfãos de romance.