Um dia desses, eu descia a linha do tempo do meu Facebook. Apesar dos vários compromissos, sempre acabo preso ao celular. Acho, no entanto, extremamente interessante o ato de “perder tempo” dessa forma. Apesar das críticas de “faz postzinho no Face, mas não vai protestar na rua”, podemos nos informar a respeito do mundo e ver opiniões diferentes das nossas. “Deixe-me ver o Facebook em paz” – é o que tenho vontade responder para a minha penca de obrigações e carga de culpa a cada vez que sinto que estou fazendo algo inútil. Pois bem, nessa fila de informações que saltam aos olhos, sempre encontramos aquele post do amiguinho reacionário que nos deixa com raiva. Sou, na maioria das vezes, forçado a engolir aquela resposta esbofeteadora – daquelas que esfrega a cara do amado nas informações, na história e nos fatos. Frequentemente, evito escrever “tapas na cara da sociedade” para não perder as amizades. A questão é: eu vi um post que era, posso dizer, um tanto mal educado com os secundaristas que ocuparam as escolas por todo Brasil, principalmente no Paraná. Então, comecei a refletir um pouco: estão xingando os estudantes de vagabundos (para não falar os outros nomes de mais baixo calão) e realmente acreditam que estão certos. Acreditam que eles não querem estudar. Isso me faz lembrar um certo pensamento que deveria, ao menos, beirar as visões de mundo de todas as pessoas: não existe uma só verdade. Sabendo disso, resolvi que iria escrever esse texto: Precisamos falar sobre nossos(as) estudantes!

O sistema público de ensino é péssimo. São exceções aquelas escolas que minimamente tem uma aparência razoável. Cadeiras quebradas, mesas riscadas, ventiladores (quando há) semelhantes a turbinas, muros pichados, janelas quebradas, falta de materiais didáticos, etc. “Aaah” – disse o(a) Sr.(a) Reacionário(a) – “mas foram os próprios estudantes que causaram esses problemas para as escolas, não é mesmo?”. Pode ser. Talvez tenha razão. Então, voltemos a pensar no sistema público de ensino. Voltando nosso olhar, agora, para o método de ensino: alunos enfileirados, sentados, ensinados a ouvir e obedecer. Não entendem o conteúdo e se conversarem, levam bronca e, na insistência da conversa, vão para a diretoria. Quer um exemplo do mal planejamento do estudo? Ou um exemplo de como a educação é para poucos? É simples. Basta pensar no terror dos alunos: a matemática. Se não é entendida, vira uma bola de neve, e as funções mais básicas já não terão mais a possibilidade de serem aprendidas. O que podemos fazer? Fazer perguntas? O professor dirá: “Já expliquei isso. O que você estava fazendo? Conversando?”. “MAS” – disse o(a) Sr.(a). Reacionário(a) – “olha aquele estudante, ele aprende com o próprio esforço. Todos os outros poderiam fazer isso. Deveriam protestar estudando, esses vagab…”. Interrompi a voz dele na minha mente, porque, não somos obrigados a dialogar com falta de respeito.

Todos os dias, os estudantes de escola pública vão para um lugar desagradável assistir a suas aulas, com professores tradicionais de ensino, que falam na frente, e esperam que aquilo brote no cérebro de cada aluno. Isso acontece não só em escolas públicas, mas também em particulares. No caso da rede pública de ensino, há estudantes de todos os perfis econômicos. Mas, no geral, aquele economicamente mais bem sucedido é o de classe média e a grande maioria vem da classe baixa. Essa grande maioria dificilmente terá um ensino que lhes dê a autonomia necessária para mudar de vida. Além disso, em linhas gerais, na maneira como o método de aprendizagem é organizado hoje, o aluno que estuda eficientemente é aquele que já havia aprendido um repertório de estudo.

Essa situação chegou a esse extremo devido a quê? Simplesmente ao fato de que o Estado não investe em educação, pois ela pode o prejudicar. Os governantes receiam um povo inteligente. Uma nação informada sabe de seus direitos e cobra-os. A festa que os engravatados em Brasília fazem com o dinheiro público não aconteceria com uma população bem esclarecida. Fica claro, então, que o descaso com uma escola universal para todos é intencional. É um ato político!

Durante anos vimos os alunos mais pobres dormindo nas próprias carteiras, fazendo bagunça, destruindo patrimônio, desrespeitando professores, envolvendo-se em polêmicas, roubando etc. Por outro lado, durante anos também vimos os governantes dormindo nas sessões em plenário, fazendo bagunça, destruindo patrimônio, desrespeitando professores, envolvidos em polêmicas, roubando etc. Um contexto educacional voltado para gerar educação de qualidade é importante. Se cada um desenvolvesse o “próprio esforço” dentro de si, poderíamos abandonar nossos filhos a própria sorte quando crianças e, ao chegarem à idade adulta, esperaríamos que se tornassem grandes empresários, éticos e ricos. Mas não é o que acontece. Os estudantes precisam aprender a estudar, aprender a se esforçar e aprender a enfrentar problemas. E isso deve ser ensinado. Um indivíduo pode aprender isso sozinho? Sim, claro! Mas cada pessoa vive uma experiência de vida diferente, e o que leva uma pessoa a agir de determinada forma, pode não levar a outra a agir da mesma maneira. Não haverá mudança social sem educação. Não haverá mudança social sem pessoas que pensem por si mesmas, que saibam questionar o que já está imposto. E pessoas APRENDEM a pensar. Pessoas APRENDEM a se esforçar. E, geralmente, não fazem isso sozinhas. Precisam ser ensinadas, ou o abandono à própria sorte gerará apenas 1% daqueles que conseguirão “se virar sozinhos”. Mas e os outros 99%? “Não se esforçaram, é claro” – disse o(a) Sr.(a) Reacionário(a).

Então me diga: por que todo esse rebuliço quando, finalmente, os estudantes se revoltaram com a situação na qual estão submetidos? “AAH” – começa o(a) Sr.(a) Reacionário – “Mas é um movimento político. Vimos secundaristas ao lado de Gleisi Hoffman…” Sim. É um movimento político. Até as pessoas que dizem não ter ideologias, possuem ideologias. E há muitos corruptos entre TODAS elas. Mas isso não desmerece uma luta por mais educação. Países como a Finlândia possuem a melhor educação do mundo, 100% estatal, gratuita e universal. Por que não podemos ter isso no Brasil, que é a 9ª maior economia do mundo? Que tenhamos educação para todos! E, sim, a educação deve ser reformada. Mas deve ser levado em consideração que essa reforma venha de profissionais da educação. Que essa reforma venha acompanhada, também, pelo diálogo com os alunos. Por vezes, até os próprios professores se esquecem para quem estão ali. Sem alunos, professores não existem. Vamos valorizar aqueles que estão tentando melhorar minimamente a formação de nossos jovens. E lembremos sempre: educação não é gasto, é investimento!

(Foto: psalm.escreveronline.com.br)

 

Texto colaborativo de Felipe Boldo