Cubro-me. Como uma vergonha mal curada vou afundando-me na cama. Cobertor. Mal cheiro. Janela fechada. Louça na pia. Dois morros desenham a mesa. Doze livros. Tentativas frustradas de começar. Sair. Caminhar. Continuo inerte. Na cama. Coberto. Às vezes, nem a literatura salva. Sigo errante, apesar da escrita. Sigo torto.

Há quinze dias não escrevo. Não leio. É uma aberração. Estranho. Como se duas mãos, gigantes, ossudas te agarrassem pelo âmago. É como que uma melancolia mal curada. Foda-se.

Falo. Corro. Ando. Como. Mas não escrevo. Sempre achei uma merda esse negócio de escrevo para não morrer. Escrevo para não enterrar-me. Papo de romântico. Literatura é fogo. É baseado que sobe à cabeça na primeira tragada. É um tiro de cocaína no cérebro virgem. É um ânimo a mais. Ninguém precisa dela pra viver. O escritor precisa dela porque é isso que ele sabe fazer. De resto, é um inútil. Não levanta uma parede. Não pinta um quarto. Não levanta uma casa. O escritor só sabe chorar por atenção nos murais alheios e escrever.

Quero que se foda a literatura, estou tentando sobreviver. Quando o boleto chegar, vou ligar para o SAC da empresa que fornece água “Moço, me desculpe, não tenho dinheiro. Sou poeta. Me desculpe. Libera essa pra mim. Vou recitar um poema para o senhor. Liga minha água. Preciso tomar banho. Moço? Moço, me desculpe.” É o caralho, só escreve quem está com a barriga cheia. Luz e água quente em casa. O resto é sonho de estudante de letras criado na zona sul.

Fiquei quinze dias sem escrever e, quando voltei, foi uma merda. Mas, se não voltasse, não ia morrer. Voltei aos vinte. Meus dedos doeram de novo. Ficaram em carne viva. Esfolaram. Abri duas latas para o primeiro parágrafo. Dormi. Quando acordei de novo, estava uma merda. Queria me cobrir de novo. Foda-se. Acender um cigarro e encostar de leve no colchão. Mas o dia 10 estava chegando. O dia 10. “Moço. Moço. Me desculpe. Vou ler um deles pra você”.

Quando eu tinha vinte, ninguém lia o que eu escrevia. Nem tinha dia 10. Mas, mesmo assim, lá estava eu. Sei lá que merda eu estava fazendo. Não estava lá para não enlouquecer. Nem pra sobreviver. Só estava lá. Era isso que eu sabia fazer. Meus dedos esfolavam. Escrevia qualquer merda. Um inútil. Às vezes eu me jogava na cama. Ficava lá. Coberto.

Minha namorada ria e dizia que não entendia porra nenhuma dos meus textos.”É só merda e choro. Você é um escritor mesmo. Só choro.” Não é pra entender, nenhum escritor sério quer isso. Borges deve ter ficado cego de tanto assitir a seminários de universitários explicando sua obra. Ele devia ficar lá no canto da sala, gargalhando É meu sonho.

Aos vinte, eu participava de festas literárias com doutorados e maconha. Esperava a chuva passar. Corria pra casa. Rascunhava qualquer merda e lia em voz alta. A mão da literatura pesa. Ela não paga suas contas. Não tem SAC. Você percebe o resto das pessoas nas calçadas, parecem livres, quase felizes. Eu, aos vintes, achava que literatura era tudo. Que nunca conseguiria me livrar dela. Nem de Dostoiévski, nem de Borges, nem de porra nenhuma. Aos quarenta, o dia 10 chega. Chama-me. Abraça-me. A literatura continua sendo o tiro que me mantém, na inconsciência de ser. “Moço. Moço. Me desculpe. Vou ler um poema pra você. O senhor sabia que Borges ficou cego de tanto rir?”

(foto: Facebook/Existencialismo virtual)