Impossível não conhecer o filme que Jack Black protagonizou em 2001. O amor é cego. Com certeza muitas pessoas assistiram e adoraram na época em que foi lançado. O gênero é classificado como “comédia romântica”, mas de comédia, o filme não tem nada. Tirar a obra do papel e transformá-la em filme foi uma decisão infeliz. Porque a história é, acima de tudo, gordofóbica.

O enredo todos sabem. Hal, interpretado por Jack Black, é hipnotizado e passa a ver somente a beleza interna das mulheres. Então, conhece Rosemary (Gwyneth Paltrow). A moça, obesa, é vista pelo protagonista como uma deusa. Magra, alta, loira, encorpada. A idealização da mulher perfeita. O puro estereótipo da beleza. E é a partir daí, que o filme começa a ficar decadente.

Filha de ricos, Rosemary não trabalha. Mas faz uso do seu tempo livre para conversar com crianças carentes e voluntariar. Apesar da sua bondade e bom caráter, é o seu peso que torna-se um problema. Um empecilho para um romance com Hal, que se vê apaixonado por ela. Apaixonar-se tudo bem, mas por uma gorda??!

Esse preconceito é reforçado durante todo o filme. O melhor amigo de Hal, por exemplo, não se conforma com o romance. “Sério que você está apaixonado por ela?”. Mauricio (Jason Alexander), um rapaz baixo, acima do peso e envergonhado pelo seu rabo de porco, tenta a todo o momento mostrar a “verdade” para Hal. Como se dissesse: “Quando você ver como Rosemary realmente é, não vai querer ficar com ela”. O próprio pai da moça desconfia do sentimento do genro. “Eu sei que você não está gostando da minha filha de verdade”.

O filme também exagera ao reforçar estereótipos. Rosemary vai nadar e a água transborda da piscina. Quebra bancos de aços ao sentar-se. O seu peso inclina a canoa. Ela come desmesuradamente. Durante os 113 minutos, fortalecem a ideia de que mulher gorda não pode ser bonita. Pelo contrário, é horrenda. A personagem, quando obesa e com short curto é vista como deplorável e, quando magra, como a gostosa. A comédia do filme nada mais é do que um conjunto de piadas de mau gosto. Falha totalmente.

O preconceito é então consolidado no filme ao juntar a gordofobia ao machismo. É importante lembrar que Hal também é gordo. Mas isso nunca foi prejudicial para ele. Hal pega todas e sempre está com várias na balada. Enquanto Rosemary é tachada como coitada. Não consegue começar um relacionamento há anos. Ninguém quer namorar uma gorda. Como sempre, a cobrança cai restritamente sobre as mulheres. O homem gordo é aceitável, mas mulher acima do peso é uma vergonha.

Enquanto, de um lado, o filme supõe que é impossível uma moça obesa ser amada e desejada, por outro, Hal é glorificado. Glorificado, pois, apesar de Rosemary ser gorda, ele valoriza as suas qualidades. O mínimo que se espera de qualquer pessoa. Mas, na obra, o homem é enaltecido. Enaltecido por fazer o mínimo.

O objetivo do filme era mostrar que a aparência física não é tão importante quanto a exterior. Para isso, retrataram o gordo como detestável e o magro como atraente e encantador. Tentaram quebrar um preconceito com mais preconceito. Com gordofobia. Não tinha como dar certo.

(Foto: Reprodução)