Talvez a primeira coisa que deve-se perguntar para alguém quando se quer saber o seu modo de enxergar o mundo, é se ela é monista ou pluralista. Oh meu Deus, o que são essas palavras? Vou explicar: monista é a pessoa que enxerga o mundo de uma perspectiva na qual há uma causa para todas as coisas que acontecem. Já o pluralista, é aquele que possui a compreensão de que muitas coisas podem acontecer e nem sempre possuem uma explicação.

Complicado, não? Pois bem, o monista entenderá que o mundo se configura em verdades absolutas. Poderá, um dia, ser o universo totalmente previsível; cada detalhezinho que acontecesse em nossa existência teria alguma justificativa que talvez ainda permaneça desconhecida. O mundo seria, então, exclusivamente mecânico, aludindo a uma máquina, tendo, no final das contas, um “funcionamento perfeito”. Por outro lado, os pluralistas entendem as leis universais de maneira exclusivamente variável. São pessoas que compreendem que tudo se configura ao acaso, sem previsibilidade ou controle algum.

Quando se estuda sobre a história da humanidade, observa-se uma naturalização em tentar explicar as coisas, com respostas que sejam visíveis, quantificáveis e mensuráveis. Somos céticos, nossa cultura nos torna desacreditados, dizendo que a tudo devemos colocar uma justificativa. Não acreditamos em tudo que nos dizem, e a famosa frase “só acredito vendo” tornou-nos mais seletivos em relação ao que acreditar.

Talvez o modelo de ciência que vem sendo formado desde a Revolução Industrial nos remeta a esse tipo de pensamento. Ligamos a TV e logo aparece um especialista afirmando o que ocorre no cérebro de um psicopata. Em programas de talk show é possível notar psicólogos, amantes em atribuir nomes a “doenças mentais” a pessoas que não se ajustam às normas. Os geógrafos explicam as catástrofes naturais apontando para movimentações que ocorrem no centro da Terra, bem como estudam a previsão do tempo. Nota-se um estilo de ciência que se adapta bem aos atuais padrões de vida. A ciência é aquela que tem respostas, tem previsões, tem a verdade.

Todavia, como se sabe, a ciência já legitimou (e legitima ainda hoje) certas formas de verdades que serviam a interesses de determinada parcela da população em detrimento de uma maioria menos favorecida. Um exemplo pode ser visto com Francis Galton, o qual “comprovou” que algumas pessoas marginalizadas, por sua aparência física, tinham mais propensão para ações violentas. Para a época, isso foi entendido como uma verdade científica. Essa biologização ocorre até hoje, quando explicamos que uma criança tem problemas, pois ela tem TDAH. Ocorre, ainda, quando se argumenta que a pessoa é triste, pois tem depressão. Tem bipolaridade. Os médicos e farmacêuticos surgem com a ideia de medicar esses “problemas orgânicos”. E tudo fica bem, certo? Receio que não. Podemos, hoje, ano de 2016, entender a ideia de Galton como uma falta de conhecimento; uma falta de visão de mundo mais ampla. Poder-se-ia pensar, no auge de nosso egocentrismo, que estamos mais desenvolvidos, e, hoje, chegamos à “essência” de todas as coisas. É importante falar de verdades científicas, para descermos um pouquinho do salto e entender que, ainda, legitimamos uma forma de biologização que desconsidera outros aspectos que também influenciam a vida de uma pessoa. É óbvio que nossa carga genética, nosso organismo biológico, é importante para a formação de um indivíduo. No entanto, o comportamento humano não está restrito e nem é determinado por isso.

É interessante notar, que há, realmente, certa variabilidade biológica de uma pessoa para a outra. Ninguém é organicamente idêntico. Até mesmo gêmeos fenotipicamente parecidos possuem certa variabilidade. Da mesma maneira, se configura a natureza. Experimente jogar um dado de seis lados para cima, várias vezes, sempre da mesma forma, partindo da mesma posição. A resposta será sempre igual? Muito provavelmente não. O que foi feito para explicar essas diferenças de respostas? A explicação mais comum de um monista é: “não há, ainda, tecnologia suficiente para tal feito” ou “temos que investigar até achar a causa de tudo”. E realmente, pode ser que ele esteja certo. Podemos chegar daqui a milhões de anos, a um nível de desenvolvimento, cuja vantagem será o conhecimento das causas de todas as coisas.

Vale ressaltar que não estou pegando a ciência que prevê e quantifica, amassando seus feitos e jogando no lixo. O mundo, a natureza, o universo, possuem certas previsibilidades. Aliás, possuem muitas previsibilidades. Possuem demasiados fatos a serem trabalhados que podem ser destrinchados e trazidos à tona. O fato é que, há uma parte do funcionamento do universo que acontece ao acaso. Ratos produzidos em laboratório, em condições perfeitas, possuem variabilidade genética. O que explica essa diferença de cada um? Se tentarmos explicar o fenômeno “calor”, seria algo parecido com “desordem agitada de moléculas”. O que explica essa irregularidade?

Somos seres minimamente variáveis biologicamente, vivendo em uma cultura com certa irregularidade, com comportamentos ora previsíveis, ora imprevisíveis. Vivemos num mundo que pode ser regido por um mínimo de acaso. Isso significa que tudo o que conhecemos, não é uma coisa ou outra. Não é um mundo exclusivamente mecânico ou exclusivamente irregular. No entanto, seria mais sensato admitir que existimos em um universo que possui suas previsibilidades e seu mecanicismo, mas há, da mesma maneira, um grande espaço para o imprevisível, para o variável.

Talvez, tenhamos medo de que as coisas possam acontecer sem explicações. Sem uma situação antecedente para servir de causa. Por isso, pense comigo: imagine que você é uma espécie de criatura diferenciada que consegue enxergar todos os motivos pelos quais as coisas acontecem. Nessa sua nova forma de ser, você saberia a causa de tudo. Sendo assim, poderia ser uma criatura monista, pois veria explicações para problemas que antes pareciam não ter uma situação antecedente que o pudesse servir de resposta. Então, o mundo seria mecânico. Agora sim, você seria o dono das verdades absolutas. No entanto, será que algo não poderia o surpreender e acabar com seu mundo perfeito? Pasmem.

(Crédito da foto: blahcultural.com)

Texto colaborativo de Felipe Boldo