Eu me considero uma pessoa feliz. Sempre me considerei. Nunca vi motivos para ser triste. Eu que sempre tive o que quis, eu que sempre tive tudo do bom e do melhor, eu que sempre tive amor ao meu redor, nunca pensei que poderia me dar ao luxo de ser triste.

Minha idade me marcou de forma diferente em comparação ao resto das pessoas. Minha solidão começou muito cedo, não sei se “começar” é o termo mais apropriado, pois sempre me acompanhou. Quando criança, eu tive que me adaptar para não cair na solidão absoluta. Precocemente, eu comecei a estudar temas que facilitavam minha comunicação com aqueles que me cercavam. Devido a isso, minhas crises começaram cedo demais.  Não vivi a infância da despreocupação.

Aos 6 ou 7 anos eu descobri minha sexualidade. De forma infantil e assustadoramente precoce. Eu não sabia do que se tratava, eu não sabia o que era gostar ou não gostar de alguém, mas sabia que, quando eu dava um selinho em algum amigo, era prazeroso no sentido mais puro da palavra. Logo aprendi também que isso deveria ser algo secreto. Não poderia contar a ninguém. Aprendi a esconder os meus gostos. Aprendi cedo demais que meus gostos estavam errados. Aprendi cedo demais que se quisesse acabar com a solidão, eu deveria poupar as pessoas do incômodo que era encontrar alguém como eu.

Aos 9, eu já havia desistido disso. No primeiro ano na escola nova, todos já sabiam. Eu não entendia o que estava acontecendo. Todos me perguntavam sobre quem eu queria namorar. Eu nem sabia direito o que era namorar. “Alguém que me ame, eu acho”, foi o que eu respondi para minha professora da segunda série quando me perguntou com quem eu queria me casar. Ela não aceitou a resposta. Fiquei com medo, muito medo mesmo e voltei a esconder esse fato da minha vida. Mas já era tarde. Foi aos 10 que eu ouvi pela primeira vez a palavra “VIADINHO” sendo gritada em minha direção.

Segui em frente, sempre acompanhado de pessoas que me ajudaram a conviver com minha solidão. Gente que eu nunca vou esquecer. Quando eu fiz 12 anos, apoiado por essas pessoas maravilhosas, decidi não esconder mais. Foi uma revolução. Respondia “EU GOSTO DO GABRIEL” a todos que perguntavam com quem eu queria me casar. Na internet, eu conheci pessoas como eu. Pessoas cobertas em solidão. Comecei a gritar essa solidão a todos. Mas, mesmo assim, ela não saia de mim, continuava lá. E me vi sozinho de novo.

No final dos meus 13 anos eu descobri minha pele. Descobri meu cabelo. Aprendi que havia mais um aspecto da minha pessoa que incomodava. Aprendi que teria que gritar duas vezes mais, que teria que enfrentar minha solidão duas vezes. Mas isso eu não escondi, até porque não tinha como. Gritei minha cor também. Gritei meu cabelo, minha boca, gritei meu corpo todo. Gritei pela minha historia que, mesmo sendo precoce em tudo, eu desconhecia. Gritei pelos meus que morriam. Gritei pelas vozes que gritaram por mim.

Hoje eu tenho 14 anos e continuo convivendo com pessoas maravilhosas. Cercado de gente com uma solidão tão grande quanto ou até maior que a minha. Pessoas que gritam comigo. Lutam comigo. Mas, a solidão, ainda está aqui. Talvez essa solidão tenha crescido nesse tempo todo, talvez ela tenha se tornado mais forte, mas eu estou aprendendo a conviver com ela depois de tanto tempo. Eu sempre tive medo da solidão, ainda tenho, mas hoje, esse medo, está se tornando um amigo.

Hoje eu continuo sozinho, mas gritando.

(Crédito da foto: instagram.com/onearchives )

Texto colaborativo de Lucas Brandão