Das dezenas de resenhas já lidas até hoje sobre os mais diversos livros, em que a maioria compara a obra resenhada com outras do mesmo autor, “Notícia de um sequestro” dispensa comparações. Por si só, o livro faz com que o leitor se apaixone pelas palavras do escritor logo nos agradecimentos.

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Gabriel García Márquéz nasceu na cidade de Aracataca, na Colômbia, em 1927. Faleceu recentemente, em 17 de abril de 2014. Escritor. Jornalista. Editor. Ativista e político colombiano. Homem de enorme sensibilidade. Não por acaso, considerado um dos autores mais importantes do século XX.

A princípio parece ser uma obra de difícil leitura, apesar das palavras comuns e linguagem casual. Isso porque as histórias se entrelaçam umas nas outras, e qualquer descuido ou falta de atenção do leitor, nos perdemos no emaranhado de detalhes. Detalhes, afinal, que estão presentes do começo ao fim do livro.

“Notícias de um sequestro” é mais que notícias. São histórias reais. Vidas que fogem de qualquer ficção, e levam o leitor a viver tal realidade junto aos personagens. À medida em que as páginas dos primeiros capítulos se concluíam, pude me sentir espiritualmente e psicologicamente sequestrado junto aos reféns.

O livro apresenta ao leitor um período marcado para sempre na história dos Colombianos. Retrata minuciosa e detalhadamente a trajetória de um sequestro que durou anos e trouxe feridas jamais esquecidas na vida de quem passou por todas as horríveis situações de prisões, torturas e mortes. Feridas marcadas naqueles que, mesmo distantes, tiveram consciência das notícias que aos poucos tomaram conta de toda Colômbia.

A luta entre narcotraficantes – chefiados por um poderoso e influente homem – e o governo – muitas das vezes despreparado, assustado e cauteloso – colocou entre o fogo armado importantes nomes de jornalistas do país. Os sequestrados, ligados a algo ou alguém em quem pudessem pressionar em escala nacional, na tentativa de troca de interesses, como a proibição da extradição e medidas que garantissem a segurança dos narcotraficantes e seus familiares em casos de rendição.

O autor então mergulha a fundo na história individual e também coletiva de cada refém. Pôde conversar e ouvir as experiências na voz dos próprios sequestrados. Relata, com a mesma maestria, o terror vivido pelo país, com detalhes e verdades que nem mesmo um renomado professor de história conseguiria.

Foram dias em que, mentalmente, pude estar “ao lado” dos sequestrados. Dentro dos cativeiros e diante de toda a extrema e brutal pressão ao qual eram diariamente submetidos. Os sustos durante os sequestros, homens encapuzados, armas, carros que subiam e desciam ladeiras até as casas e sítios que abrigariam os reféns, e a incerteza do que lhes aconteceriam.

O sentimento mais triste me abatia quando, em lágrimas pelo cruel desfecho de uns, ou a extrema alegria pela libertação de outros, recordava-me tratar de histórias reais, pura e intimamente vividas, sofridas e choradas.

São também histórias de amores, fiéis a todo instante. Retratados ao longo do sequestro na incansável tentativa de libertação dos homens e mulheres. Histórias de maridos, esposas, pais e filhos que amavam e desejavam, mais do que tudo, tê-los de volta em seu aconchego familiar. Relatos de amizade e companheirismo, vividos e compartilhados ao longo do período de cativeiro.

“Notícias de um sequestro” me deixa marcas não somente de tristeza por todo o sofrimento retratado, mas também lições que certamente levarei comigo daqui em diante. Profissionais e, principalmente, pessoais.

As páginas do diário de Diana. Cartas de Pacho e Maruja. Relatos de Beatriz. A alegria de Marina e a coragem do Sr. Villamizar e da Sra. Nydia Quintero. As palavras de cada um desses personagens, reais, serão sempre, para mim, eternas lições de vida e ensinamentos que jamais esquecerei.

Que este livro possa ser e fazer o mesmo com você.