Ontem minha estante caiu. Estava envergada a tempos. Coloquei três colunas com dez livros cada. Depois, aumentei mais um pouco. Percebi como aguentava. Nunca caiu. Aumentei as colunas. Mais livros. Bukowski. James Joyce. Kafka. Borges. A estante aguentou tudo. Lutava. Mas, nunca havia caído. Até ontem.

Ontem, ela caiu. Estava lendo. Espatifou na minha mão.Os livros se esparramaram no chão. Aos meus pés. Fiquei sem reação. Observei. Cada livro aberto em uma parte. A história espalhada pelo chão. Aos meus pés. Na parede, dois buracos para lembrar. Um dia, uma estante já estave erguida. Centenas de páginas. Nenhuma escrita por mim. Tinham pesos diferentes. Cada um por si. Linha por linha. Desmoronou. Exauriu-se.

Compreensível. Tateei a mão na gaveta da mesa. Primeira. Segunda. Peguei um maço de cigarro. Escondidos. Meu isqueiro. Acendi três de uma vez. Os levei, devagar, sem pressa, entre meus lábios. Um de cada vez. O do meio, por inércia. Cadenciado. Apreciei a combustão. Lenta como a queda da estante. Lenta como a progressão social. Suguei. Juntos. Enchi-me de ar. Nicotina.

Os livros aos meus pés. Tudo é ficção. Bukowski. James Joyce. Kafka. Borges. Com os olhos vermelhos, inchados, assoprei tudo de uma vez. A cabeça meio pesada. Sonolento. Olhei a dispersão no ar. No frigobar, peguei uma garrafa de cerveja. No caminho, tropecei duas vezes. Dostoiévski e Saramago. Dois metros me separavam da mesa. Abri, com os dentes, a garrafa. Uma fina linha de sangue escapou-me pelos lábios. Passeou sobre o meu pescoço. Uma gota caiu no chão. Jack Kerouac manchou-se de vermelho. Depois de uma golada, olhei ao redor. Metade da garrafa estava chão. Ilhado.

Finalmente. Eles haviam vencido. A estante havia quebrado ao meio. A madeira, empalhada, mostrava-se. Lembrei que já não tinha dinheiro no banco. Um gole para Hemingway. Deliciou-se. Era a glória meio disfarçada. Chuva. Mais um gole. Deitei-me no chão. Fico sobre eles. Todos haviam desgraçado a minha vida. Agora eu havia vencido. Balançava meus braços. Pra cima, pra baixo. De um lado, pro outro.

Alguém molhava-me. Chorava de rir. O clichê do fracassado bêbado. Sozinho. Deixei-me molhar. Foda-se. Fui. Pé, braço, pé, braço, em direção à mesa. O mundo soca-me na cabeça. Linhas e linhas. O peso, que havia derrubado minha estante, derrubava-me também. Tudo parecia úmido, pegajoso. Chuva. Deitado, simulei mais uma golada. Encharquei Flaubert. Lambi Flaubert. Lambi o chão. A vida parecia muito melhor agora. Mesmo nível. Todos no chão. Cerveja. Cigarro. Estante. Chuva. Eu. Eu. Eu. Mesmo assim, alguém chorava de rir. De mim. Ainda.

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