No dia 17 da Abril de 1996 tropas da Policia Militar protagonizaram uma das maiores chacinas de sua história. Dezenove trabalhadores sem terra tiveram a vida ceifada na estrada PA-150, no sul do Pará, no município de Eldorado do Carajás, durante uma passeata. A truculência policial chocou o país. Os holofotes da opinião pública se voltaram para o norte do país. Dezenove vidas são centenas de histórias. Todas manchadas, pra sempre. A chacina marcou a luta pela reforma agrária no país.

O jornalista e escritor Eric Nepomuceno se debruça sobre o tema no livro “O Massacre: Eldora do Carajás: uma história de impunidade” (Editora Planeta: 2007). Eric desenvolve uma narrativa rica para desvendar os pormenores da chacina. Suas verdadeiras causas. Para isso, conversa com os próprios sem terra, parentes ou amigos dos mortos. São histórias de uma dureza sem igual. É o Brasil que a televisão aberta nos esconde. No norte. Pará. Interior. Pobres. Sem terras.

O narrador mescla números com relatos. Constrói uma reportagem com técnica impecável. Completa. “Trabalhei neste livro entre fevereiro de 2004 e junho de 2007. Entevistei 32 pessoas. Foram 54 horas de conversas gravadas, além de três cadernetas repletas de anotação” relata o autor no prefácio do livro.

Assim como nos veículos oficiais e hegemônicos, não há imparcialidade na linha narrativa do texto. Eric coloca-se na linha de frente dos trabalhadores. Conta a história opaca de luta pela terra. A narrativa leva o leitor para caminhos surpreendentes. A partir do massacre do dia 17, percebe-se o cheiro de mofo das instituições locais. Política. Agricultura. Coronelismo pulsante. Vive-se em estado de sítio pelo Brasil afora.

Nessa descoberta que está o valor do livro. O leitor percorre desde os preparativos da marcha, organização interna, vida nos assentamentos, bastidores das negociatas políticas até o julgamento final dos 144 soldados da polícia envolvidos na operação do extermínio.

São informações preciosas sobre o trabalho escravo na região, que chegam a números alarmantes. Histórias dos participantes da marcha. Como, por exemplo, a de um pai que viu seu filho ser destruído por balas da polícia, se jogou no chão para não não ter o mesmo destino e foi levado em um caminhão junto com outros cadáveres. Entre eles, seu próprio filho morto.

São relatos chocantes que colocam o leitor na marcha. Junto com os trabalhadores. Nas salas de reuniões, junto com os latifundiários e políticos locais. Tudo milimetricamente encaixado. Percebe-se que um Massacre nunca ocorre por acaso. Por destino. Há sempre um bastidor. Pronto a se revelar. Basta investigar.

LEIA UM TRECHO DO LIVRO: 

“Dos 19 mortos, 13 eram dirigentes ou cooredenadores do MST. Dez levaram mais de um tiro. No total, foram 37 ferimentos de bala. Mais da metade dos tiros-17- atingiu vítimas na cabeça, no pescoço, no peito ou no abdomên. Pouco menos de metade dos mortos também foi atingida por golpes de arma branca, punhais, foices ou facões, e mostrava ferimentos extensos e mutilações. Uma vítima morreu por golpes de facão. Outra teve o crânio destroçado a pauladas. Uma outra teve o coração atravessado por uma lâmina larga, possivelmente de foice”

SORTEIO 

Quer saber mais sobre essa história? Nosso blog vai sortear uma edição do livro, autografada pelo próprio autor. Acesse o nosso Facebook: http://www.facebook.com/grupodoscinco e fique por dentro do regulamento.

(foto: Sebastião Salgado)