Era quinta-feira. Estava no UPA do Sabará em Londrina. O UPA, para quem não sabe, é a Unidade de Pronto Atendimento. Cada região tem o seu. Meu namorado estava com dores no peito. Ele entrou para ser atendido, mas não tinha direito a acompanhante. Tive que aguardar fora. Lembro-me de ter olhado o relógio quando sentei para esperar. Eram 23h. A cada hora que se passava, o local se esvaziava consideravelmente.

As cadeiras desconfortáveis, umas sem braços, se dividiam em dois conjuntos. Metade ficava do lado esquerdo da recepção e metade, do lado direito. Recepção é o nome que se dá para um balcão com dois computadores e uma impressora. Durante a noite, raramente havia alguém sentado ali. Quando um novo paciente chegava, o rapaz saía, pedia o documento, digitava rapidamente no teclado, imprimia um papel e entrava pela mesma porta que saíra. Continuava a conversa com os guardas municipais que estavam a trabalho.

Fiquei ali fora, esperando meu namorado em uma das cadeiras desconfortáveis. Ele já estava tomando soro. Sentei na última fileira, junto à parede. Havia uma tomada e precisava carregar o meu celular. Enquanto jogava Fruit Ninja, escutava a porta de entrada e saída dos pacientes ranger toda vez que alguém passava por ela. Numa das vezes, alguém, desastrada, bateu a porta contra a parede. Levei um susto. Uma mulher com aparência de aproximadamente 50 anos, de pele escura e bochechas rosadas, saiu sem perceber o barulho que havia produzido.

Agitada, sentou-se próxima de mim. Exatamente três cadeiras de distância ao meu lado direito. Percebi sua magreza quando olhei para suas pernas. Sua calça jeans azul escuro manchada de terra era curta. Deixava as canelas expostas ao vento do começo da madrugada. Nos pés, vestia um chinelo. Não era Ipanema. Nem Havaianas. Não tinha o nome da marca. Talvez nem tivesse marca. Seus pés com unhas pretas e calcanhar rachado não pareciam passar frio.

O pouco cabelo que tinha era fino e castanho e estava preso com um amarrador rosa bebê. Ela, abraçada com sua jaqueta de zíper preta, sorriu para mim. Os pequenos dentes eram quase imperceptíveis. A gengiva aparecia com facilidade, chamando atenção para si.Sorri de volta e perguntei: “A senhora está de acompanhante?”. Ela, de imediato me respondeu: “É que um vizinho meu começou a passar mal e daí trouxe ele para cá, ele já tá bem fraco”. Sua voz era grave. Falava alto sem receio. Os pacientes e acompanhantes que estavam ao redor, começaram a olhar assustados.  .

Meu celular já havia sido deixado de lado. Acomodei-me melhor na cadeira e fiquei de frente com ela. “Mas a senhora estava com ele quando começou a passar mal?”, questionei. “É que ele mora com uma mulher lá, e eu vou duas vezes num dia ajudar a cuidar dele. Dou banho, comida… Mas a filha dele, sei não, nunca aparece. Acho que a assistente social vai é mandar a filha cuidar do pai”, respondeu. Sua fala era bem enrolada e seu português, relaxado.

“Mas ele tem filha?”, perguntei. “Sei lá, viu? Nunca vi ninguém lá, nem filha, nada. Esses dias atrás apareceu um menino lá, nem sei quem era. Um moreninho. Pedi pra ele ir comprar pão. Ele voltou e foi embora depois”. Não compreendi muito bem, mas também não questionei. Disse que meu namorado estava tomando soro aguardando o resultado do exame. “O Helinho tá lá também. A enfermeira tá dando chá e biscoito pra ele. Falou que enquanto não baixar a diabetes, não vai receber alta. Até colheram exame no dedo dele. Não lembro agora o nome…”, fixou seus olhos nos meus, estava pensativa. “Exame de micose?”, tentando se lembrar.

Ela levantou e foi até a porta do UPA. “Nossa que frio!”, grunhiu contra o vento que entrava. Saiu. Deu tempo de abrir o Fruit Ninja novamente no meu celular e ela voltou gritando. “Ô!! Tem que tomar cuidado com a sua moto ali fora! É perigoso, hein?!”, para o rapaz que estava deitado nas cadeiras com o boné vermelho sobre o rosto. Tentando dormir, com certeza. Ele apenas tirou o boné do rosto e levantou a mão com o polegar para cima. Voltou a dormir.

Ela foi até a porta de entrada dos pacientes arrastando os pés no chão e sumiu. Quando já tinha atingido meu novo record de 1535 no Fruit Ninja, ela apareceu. Veio até a minha direção dizendo: “É exame de glicose que o Helinho fez!”, e sentou-se na mesma cadeira. “Ah sim!”, sorri. Imaginei que fosse. Inquieta, dobrava as pernas e desdobrava-as a todo o momento.

“Tô aqui desde às 7 da noite e acho que vai demorar ainda, viu? O que o seu namorado tem mesmo?”, perguntou confusa. “Ele tá com dor no peito há dias e tá achando que é coração”, expliquei para ela. O meu namorado era vizinho de maca do Helinho. Ela me contara. “Ixe…Tem que tomar cuidado, viu?”, disse. E continuou: “Tô com uma dor aqui nas costas aqui!”, colocando as mãos finas na região lombar. “Acho que vou aproveitar e passar pelo médico”, se levantou e foi até a mesa da recepção. Vi ela entregar o RG ao moço, que saíra para atendê-la.

O rapaz, de óculos quadrados e um pouco acima do peso, pediu para que ela aguardasse um momento. Ela voltou andando com passos largos para a 4ª cadeira do meu lado direito. “Acho que é porque eu carrego o Helinho, sabe? Tenho que dar banho, levantar ele da cadeira…”, comentou passando as mãos pela lombar. “Ele tá tão debilitado assim?”, questionei. “Ixe! Ele não consegue fazer nada sozinho! Coitado…”, sua voz expressa dó.

“Ele teve sorte da senhora estar junto quando passou mal hoje, né? Vocês moram aqui perto?”, perguntei. “Eu moro ali no assentamento”, apontado para trás, para a região da Av. Tiradentes. “Ele passou mal e a ambulância trouxe a gente. Tenho que ver se eles vão poder levar a gente pra casa né, porque não tem como pegar táxi não”, falou um pouco ansiosa. “Ah, acho que levam sim! Qualquer coisa, pergunta para alguma enfermeira…”, mais cedo ouvi um rapaz dizer que havia ambulâncias disponíveis no estacionamento para isso. “Mas então… Hoje moro no assentamento, mas há 3 anos atrás eu morava aqui no Columbia com meus filhos”, continuou, agora apontando para a PR-445 (Rod. Celso Garcia). “Entendi. E a senhora mora sozinha?”, perguntei. “É… Uma das minhas filhas mora ali perto de mim. Mas meus outros 4 filhos moram no Columbia ainda.”

Conversamos sobre sua família. Ela me contou que tem uma neta. Disse que tem 3 irmãs. Uma delas é bem de vida. “Ela paga aquela mensalidade para aquele cemitério, sabe? O Allamandas?! Onde já se viu, menina? Esses dias atrás uma mulher pagou 3 mil pra enterrar o parente. Até pra morrer sai caro!”. Trocamos ideias sobre isso. Depois, ela comentou que vai toda sexta-feira na casa da filha lavar a roupa dela.

Passados alguns minutos, ela se assustou ao lembrar. “Nossa! Tenho que ir ver o Helinho, senão ele vai pensar que eu fui embora. Vou avisar que tô com dor nas costas e vou passar pelo médico ainda!”, deu risada e me deixou sozinha. Menos de 10 minutos depois, ela voltou com o andar característico. Era possível escutar de longe o barulho do chinelo se desgastando. Eu, já cansada, estava deitada ocupando 4 cadeiras, abraçada à minha mochila de costas azul marinho e usando minha jaqueta roxa para esconder o meu rosto com o capuz. Tentava dormir. Mas não estava confortável.

“Já tá até dormindo né?”, riu vindo em minha direção. Sentou-se na mesma cadeira. Não me mexi. Continuei deitada. Estava exausta. Conversa vai, conversa vem, ela perguntou se eu estudo. “Estudo jornalismo na UEL! Tô no 3º ano já…”, respondi. “Ah, nessa UEL aqui em baixo?”, apontando para a PR-445. Fiz que sim com a cabeça. “Minha sobrinha estudava administração, agora ela quer aquele curso de animais… Veterinária né?”. Respondi positivamente. “Mas ela não estudava nessa UEL aí não. Era na UEL aqui de cima”, apontando para a direção da Av. Tiradentes. Com certeza se enganou com alguma outra universidade próxima dali.

Continuei conversando com ela. Olhei para o relógio. Já eram 3h da manhã. “Nossa, já são 3 horas? E hoje eu preciso trabalhar ainda!”, reclamei. “Já? Meu Deus! Não sei por que essa demora toda pra me atender! Acho que tem um médico só… “, ela não tinha relógio, dependia do meu para saber. “E você trabalha onde?”, continuou. “Na Unimed!”, falei. “Ah, ali na Souza Naves né?”, perguntou animada. “Isso!! Ali com a Rua Broba Gato”, confirmei. A sede não fica mais lá. Mas foi construído o Pronto Atendimento. Achei que estava se referindo a ele. “Sei… Na frente da Santa Casa né?”, ela não me deu tempo de dizer que estava errada e já continuou: “A mamãe precisou de 4 injeções nos olhos, cada uma custou 1000 reais. Ela foi lá conseguir liberação. É caro esse negócio, hein?”.

Ela se enganou. Não era a Unimed. Era o SSG (Serviço à Saúde Global), que faz liberação de guias de exames e consultas por um valor mais acessível do que na rede particular. Mas, sonolenta, não a corrigi. Comentei que meu avô também tem catarata e que precisou de injeção nos olhos. Realmente é caro. Ela explicou que a mãe teve que pegar um empréstimo para conseguir parcelar os 4000 reais. “É… fazer o que! Os ricos que tem vida boa. Mas pobre… Pobre não tem vez não”, estava com os olhos baixos fixos ao seu pé esquerdo, que se encolhia e se estendia. Uma voz masculina interrompeu nossa conversa. Chamou a paciente no microfone. O médico iria, enfim, atendê-la. Ecoou pela sala de espera. Maria era o nome dela.

Foto em destaque: omundodeumagarotasonhadora.blogspot.com.br