Ando pela avenida. Monóxido de carbono surra-me a face. Dos escapamentos ao meu sistema respiratório em minutos. O calor molha-me. Faz-me vivo. A cidade, os carros, os prédios, faz-me. Sou cronista. Isso não quer dizer nada. Nem é uma profissão. Não é como ser Escritor, um nome próprio. Identidade. Ser cronista é mais ou menos como não ser nada. Invisível.

É andar pela avenida e perceber os monóxidos que saem dos escapamentos, não os carros. É perceber as rachaduras nas calçadas, não os calçados. É meio que ser um pedinte. Ansioso. Pra lá, pra cá. Deu um lado, pro outro.

Não que eu goste muito dessa porra. Não gosto. Quarenta anos. Minhas costas doem. O cabelo já se despediu da minha cabeça. Feio. Meio gordo. Sobrou-me o oficio e o vício. Duas garrafas e já estou escrevendo sobre os ares das avenidas da cidade.

Meus amigos viraram doutores. Andam de terno por aí. Há carros prateados, enormes, e mulheres infelizes em duas vidas. Viraram. Eram poetas, cronistas, sonhadores da porra. Igual a mim. A gente se reunia em um bar ruim. Bebíamos algo que iria nos detonar no dia seguinte e falávamos dos projetos. Éramos simulacros. As meninas gostavam. Mas todos foram. A vida lhes chamaram.

Só eu fiquei aqui. Com duas garrafas na mesa e essa cruz. Cronista. Caralho. Deus poderia ter reservado um consultório espaçoso no vigésimo andar pra mim. Poderia ter deixado meus livros de poesia de lado. Empoeirados pelo tempo sem abri-los, dentro de uma caixa. Esqueceria essa história de literatura. Haveria uma mulher, de meia idade, que não me amaria. Haveria filhos para os quais eu não teria paciência nenhuma, mas eu seria alguém. Teria alguém.

Não cronista. Caralho. Vai se fuder Deus. Jesus. Alá. Estou pobre. Ando pelas avenidas. Abro a porta de casa. Vou à geladeira. Tropeço em uma pilha de romances russos no chão. Derrubo um gole de cerveja no chão. Bebo mais dois. Acendo um cigarro. Ligo meu notebook quebrado e… Escrevo uma crônica. Vai se fuder.

Se ainda fosse escritor. Como Stephen King ou J.K. Rowling venderia livros. Ganharia dinheiro. Minha ex namorada não me chamaria de inútil. Não jogaria na cara como eu tinha me transformado em um bêbado sem emprego nos últimos anos. Ela esbarraria no meu sucesso. Na minha página no Facebook com milhões de curtidas. Nos compartilhamentos. Comentários me meus textos. No meu contrato de dois romances com a Cia das letras. Seria foda. Teria que se calar. Ninguém pergunta à um Best seller porque ele escreve. Ninguém o importuna com perguntas imbecis sobre o que fará da vida. É a glória.

Mas a vida me fez cronista. Com uma calça jeans e um sapato sem cor. Andando pelas avenidas. Até um dia alguém me encontrar morto, em meu apartamento. Infarto fulminante. Vão abrir meu note. Navegar na área de trabalho. Achar meus textos. Genial. Publicar. Ganhar muito dinheiro. Espero.

Deveriam questionar o sucesso, não o fracasso. Fracasso é simples. Todo mundo já tem. Mas, o sucesso, o que vêm aos poucos ou repentino, é uma desgraça. Aleatório.Todo mundo quer. Na real, ninguém consegue. Só o Stephen King e J.K. Rowling. Mas eu nunca decorei regras gramaticais. Nem métrica ou esquema de rimas. Por isso a editora me rejeitou, pensei, certa vez, durante um porre. Odiei-me por algumas horas. Dormi.

Não me venham com a verdade. Deus me livre ser trabalhador de um jornal. Deus me livre da verdade. Ela me enoja. Prefiro o simulacro da ficção. Ou da incerteza. Minha mãe vive me perguntando se as barbaridades que eu escrevo são reais. Deus me livre escrever as pessoas acreditarem nas minhas merdas. Sou cronista. Ando pelas avenidas. Entre as rachaduras da civilização. Observo os drogados. Os ébrios. Esses sim, são vencedores.

Caralho. Não me venham com militância de faculdade. Há pessoas se fudendo de verdade nessa cidade. Muito longe da sua sala com ar condicionando. Trabalhadores que precisam quebrar paredes no sol do meio dia. Mendigos com câncer no estômago, com sangue jorrando pelos orifícios.  Por isso, o sucesso me enoja. Não o dinheiro, o sucesso. Dinheiro compra bebida. Casa. Sexo. Comida. O resto é idiotice. Sucesso é invenção. Jogo feito para a gente acreditar. Se fuder. Premiar alguns para servirem de exemplo. Sei lá, que se foda.

Vai ver, minha ex namorada tinha razão. Sou um bosta. Tenho quarenta anos. Já me tornei um bêbado. Sou um cronista. Não consigo pagar minhas contas nem ter um carro prateado. Só consigo andar pelas avenidas. Acho que respirei monóxido demais. Vou pra casa.

Quando a crônica flui, eu a guardo. Penso nela durante a semana. É como música clássica. Como Bukowski. Como cerveja. Vodka. Contas pagas. Contratos com uma editora. Autógrafos. É um gostinho do sucesso. Vida. Eu, cronista