Aos 16 anos, minha paixão por crianças me fez conhecer a Casa do Caminho, uma creche de bairro que atende berçário a pré-adolescentes. Lá, fui voluntária durante 6 meses. Era auxiliar da professora. Trabalhava com crianças de 5 anos, responsáveis por alegrar as tardes das minhas segundas e terças-feiras.
O prédio de dois andares da Casa do Caminho é visualmente pequeno. Mas além de educar crianças, também é uma instituição espírita. Na época, palestras eram realizadas semanalmente. As paredes internas azul-céu transmitia tranquilidade. Quadros de Chico Xavier e frases de Allan Kardec decoravam os corredores.
Todas as terças-feiras, a creche dava o passe. Perto das 15h, eu e a professora levávamos as crianças até o térreo. Uma das portas brancas daquele corredor sempre estava fechada. A maioria das crianças ficava sentada no chão em fila indiana. Outros, saíam para brincar de pega-pega. Gostavam de dar trabalho.
A mesma mulher sempre aparecia à porta e chamava um nome. Ficava na entrada da sala com a porta semiaberta, sem dar chances para enxergar o que havia por trás dela. A criança entrava e, depois de 5 minutos, saía. Assim fazia até que todos tivessem tomado o passe. Entrava na sala apenas a criança que tinha permissão dos pais. Gabriel, por exemplo, nunca entrava, porque sua mãe, católica, não autorizou. Direito dela.
Na época, eu era devota. Católica e catequista. Mas, esporadicamente, ia a cultos. Tinha amigos evangélicos e nunca foi problema conhecer a religião deles. Pelo contrário, gostava. Um dia, como toda terça-feira, estava indo embora da Casa do Caminho às 18h. Na porta de saída, Marilda, coordenadora, me parou: “Bruna, vem aqui!”.
“Você não quer tomar passe?”, perguntou. A responsabilidade de catequista me surgiu de imediato. Depois de uns segundos, claro que aceitei. Fui até a sala que tanto instigara minha curiosidade. A mulher, com seu cabelo loiro grisalho, me recebeu. A sala era pequena e a janela sem cortina estava aberta para o vento. Os azulejos gelados reforçavam o clima frio. Entrei, a mulher pouco conversou comigo. Demorou cerca de 10 minutos. Tomei o passe e fui embora.
Fui embora e muito questionada. Causei surpresa. Perguntaram se eu tive medo. Prepuseram o que iria acontecer comigo. Disseram que iria passar mal depois de alguns dias. Questionaram, inconformados, o motivo de ter tomado passe. A cada pergunta, mais angústia. Nunca esteve tão claro. A intolerância religiosa está viva em nossa sociedade.

Crédito da foto: anaclarasp.tumblr.com