João estava ali. Nos últimos meses, aquele banco era o seu lugar. Não o preferido, mas o seu lugar. Pensava que a qualquer momento iria reencontrar seu amigo. Mas apenas se ficasse ali, sempre. Pois era naquele canto que se divertiam. Tomavam drink barato e falavam sobre a precariedade do ato de viver.

Coisas banais que tratavam como prioridade no meio do ócio em que viviam. O bar era sujo, com seis mesas, tinha  um  balcão  enferrujado, um som sistematicamente melancólico  e um  ar  vintage que  atraia  intelectuais e proletários. Havia dois funcionários, incluindo o dono. Um deles era Roberto, um homem alto e corpulento, tão grande que parecia uma caricatura de si, Roberto era bem humorado, ao contrário do que sua fisionomia sugeria, sempre que via João lhe dava umas palmadas nas costas e perguntava sobre aquela menininha de cabelos ruivos que estava sempre com ele, mas João nunca entendia o gracejo do garçom.

O segundo era Marcos, o dono do bar. Sempre trabalhou sozinho, gabando-se que dava conta do seu lugar. Mas a idade veio e precisou de auxilio para atender a clientela bêbada e impaciente. Marcos tinha traços nórdicos. Sua aparência evidenciava uma beleza já expirada. Hoje, anda a passos leves, caducos. Possui a fala mansa e carregada de sotaque provinciano. Tinha carinho pelo lugar que “Já tinha sido frequentado por Best Sellers”, segundo sua memória.

João gostava do lugar. Apesar da qualidade da comida. Fora ali que tinha conhecido seu amigo mais querido, Jorge. A amizade deles é uma daquelas coisas que não tem explicação. Logo quando foram apresentados, por Camargo, um amigo em comum, se identificaram. Os dois estavam se preparando para lançar o primeiro livro na época. Eram aspirantes a escritor. Jovens. Tinham muito em comum. A mesa em que costumavam ter suas conversas era aquela mesma que João estava sentado naquela tarde ensolarada. Tudo correu muito bem durante os primeiros anos. João e Jorge eram inseparáveis, sempre sentados naquela mesa de madeira, bebendo e discutindo literatura indie.

Com um tempo, a relação deles chegou ao extremo. João já não concebia um dia sem a presença do amigo, sem as suas conversas, sem o seu humor. Até que Jorge, numa noite em que estavam sob a luz da lua mais intensa, caminhando na calçada da quinta avenida disse:

– Sabe, preciso lhe dizer que sua amizade foi a coisa mais importante que já tive na vida. Mas preciso rejeitá – la logo. Não dá mais.

João, seguindo os passos e os pensamentos do amigo, achou graça na confissão e esboçou um leve sorriso.

– Não ria João, tenho um sério problema que nunca lhe contei. É o tormento de minha vida. Vivo no meio de um labirinto. Não há como escapar. Não amo! E quando amo, não sei sustentar o peso. Preciso ir.

Deu um beijo exasperado no amigo. Saiu correndo, tropeçando nos pedestres, o mais rápido que pôde. Não olhou para trás. João não podia compreender. Voltou para casa, naquele dia, atônito. Ainda que tivesse o impulso de ligar para seu amigo, de lhe dar alguma ajuda, não conseguia. Aquelas palavras não lhe saíram da cabeça “Não há como escapar. Não amo! E quando amo, não sei sustentar esse peso.” Não havia lógica entre elas. Não havia sentido algum.

Assim passaram-se seis meses. João não tornou a ter notícias de seu amigo durante esse período, nem uma carta. A única notícia que havia tido no período era um boato de que ele havia se casado e estava finalmente feliz. Isso não o impediu, porém, de continuar pensando naquelas palavras. Naquelas malditas palavras. Poemas e contos foram escritos.

Conforme o tempo foi passando, já começava a se questionar da veracidade dos acontecimentos. As palavras já haviam se  embaralhado em sua mente. Naquela  tarde sentia-se  especialmente pronto para continuar, seguir em frente, há meses que não estava com uma boa companhia, bebendo um drink ao redor de uma mesa barata em um bar sujo como aquele. Ao sentar-se na mesa, como de costume, abriu o seu exemplar de “As confissões de Lúcio”, que acabara de comprar, virou para Roberto e disse:

– Um whisk duplo, por favor. Hoje estou nas nuvens. É um lindo dia.

Roberto aproximou-se. João já esperava mais um de seus comentários.

– Tenho algo especial para você hoje, João. Alguém quer muito te ver, lá no fundo do bar. Estava te esperando – Disse, sussurrando no ouvido direito do cliente.

– Ora, não me diga que é a ruiva de que tanto me fala. Finalmente. –  Disse João, soltando uma gargalhada.

– Mais ou menos. Disse o garçom.

João espantou-se, mas não hesitou em ir ao fundo  do bar. Enquanto andava, meio confuso, chegou a pensar vagamente em seu amigo ao avistar a cadeira de sua preferência, “Visão perfeita dessa espelunca”, dizia Jorge. Mas este logo saiu da sua cabeça. O fundo do bar era quase tão sujo quanto à parte da frente. Ao aproximar-se, João sentiu um forte cheiro que vinha do banheiro, que estava com a porta aberta e era o lugar preferido dos bêbados no fim da noite. Seguiu em frente e abriu a porta. Tudo estava escuro e silencioso. Tudo que ele conseguiu distinguir era uma sombra no fundo da sala. Aproximou-se. Quando parecia finalmente que iria visualizar a face da sombra, ouviu uma voz:

– Não há como escapar. Não há. Eu lhe disse que não conseguia amar. Eu lhe disse. Não posso amar-te. Mas, não consigo parar.

E de repente uma luz acendeu-se no meio da escuridão. A sombra moveu-se rapidamente para a porta, impedindo qualquer reação de João. Este, por sua vez, tentava empurrar a sombra de alguma forma. Desesperado. A luz caiu no chão e transformou a sala em brasa. Tudo era calor. Enquanto lutava, João tentava ver o rosto   da   sombra,   buscava   desesperado   resquício   de   uma   fisionomia.   Tinha reconhecido as palavras, mas não o amigo. Era uma sombra feminina. A sombra revelou grandes cabelos que se misturavam ao fogo. Tudo parecia confuso e João, já sem força, deixou-se consumir pela chama. No chão, ainda ouviu suspiros

– Não havia como escapar, meu amigo.

No bar, todos estavam para o lado de fora, assustados com as chamas que se formaram do anda. No meio da multidão, Marcos questionou Roberto o que havia falado no ouvido de João:

– Ora, uma velha amiga, queria lhe fazer uma surpresa. Só isso.

Ninguém mais foi visto.

(foto: www.jvicttor.com.br)